25.10.09

Fumaça em Bagdá




Coluna de fumaça se ergue novamente na capital iraquiana.
Desta vez não foram mísseis americanos, e sim dois carros-bomba em atentado terrorista.
Deve ser a cidade que mais queima na Terra nas últimas décadas.
Depois dos cogumelos japoneses de Hiroshima e Nagasaki, as fogueiras de prédios e corpos que se lançam aos céus de Bagdá e circulam o mundo pela TV encerram as cinzas de contradições políticas e religiosas de nosso tempo.

24.10.09

Corpos em oferta




Em reação criativa à violência, a ONG Rio de Paz ocupou hoje a praia de Copacabana com carrinhos de compras carregando vítimas simbólicas da guerra civil. O protesto foi inspirado em vítima real, encontrada desse modo no Morro dos Macacos, em Vila Isabel, cuja foto estampou os jornais semana passada.

Viagem visual




LoopLoop from Patrick Bergeron on Vimeo.

Esse curta é muito bom. Exibido ontem na Janela Internacional de Cinema do Recife, o efeito misto da velocidade com a fragmentação é fantástico.

E pelo menos na tela grande, a sensação de movimento para quem está vendo é bem real.

Matadouro

A foto de Antonio Lacerda, da Agência EFE, mostra um policial puxando uma carroça com corpos encontrados nos morros do Rio, depois de uma semana sangrenta.

Chocante. Massacrante. Horrível.

Um pouquinho de noção nessa guerra civil aberta aconselharia, ao menos, o recolhimento de cadáveres com o mínimo de respeito - pelos mortos e pelos vivos.



4.10.09

A casa na cachoeira












Vida quieta no canto espreita intrusos, confere gavetas. Retoca gestos, reconstitui silêncios. Acostumada à banal reprise das horas – banalidade em cascata que se torna mais cara ao hábito que se cultiva.

O hábito tem o que proteger. O romantismo descoberto na infância é regado até a morte. A única exceção permitida ao rigor da vida quieta: fecha o círculo complementando a regra, sendo, na verdade, a sua melhor justificativa. A outra face da quietude, onde repousa o prazer da instabilidade por perto, raiz da alegria serena multiplicada por duas.

A costumeira presença é o álibi contra os desvios, a defesa diante de todos os males e a desculpa para a despensa de oportunidades que perturbariam a convivência, tirando as coisas do eixo. As oportunidades perdidas garantem a cumplicidade eterna, dando a impressão convicta de que a melhor oportunidade é a que resiste a todas as outras. Como um sonho pendurado na parede enquanto outro sonho se passa.

Mas a costumeira presença também bloqueia o amargor do tédio, ativando a sensação do sabor que vale a pena repetir. A silhueta no espelho não provoca cansaço algum. O mesmo reflexo conhecido, em uma infinidade de ângulos impensáveis. Assim a vontade aquietada faz-se refém satisfeita da surpresa constante, ali mesmo, dentro de casa, na companhia que não muda e não enjoa.

Até que a surpresa some. A eternidade afia os dentes, anunciando a tempestade. Um silêncio medonho desperta. A casa está solitária, a cachoeira de bons momentos, seca. Refletida univocamente, a imagem não traz a mesma graça. Bate e volta uma sombra depois do brilho ter ido embora.

Sem a dádiva junto, sobe a melancolia que nem se desconfiava, pois um manto seguro a escondia. A casa agora é previsível: tudo responde à lógica do indivíduo entregue aos seus atos e hiatos, miséria e desassossego. Para a destruição total, a demolição iminente não vem do lado de fora. Vem do lado de dentro. As fundações ruíam antes que se insinuasse a ameaça ao redor.

A casa na cachoeira é a fotomontagem de um paradoxo. Paz à beira do abismo, vertigem a um passo da poltrona da sala. A casa real tem que voar até a cachoeira imaginária. A casa ideal, fora do chão, sem a raiz que a suportava, pode enfim ser levada para o lugar onde mora o sonho, no despenhadeiro da memória.


Up – Altas aventuras (Up, EUA, 2009)
Direção: Pete Docter
Animação.

23.8.09

Salvo-conduto

A palavra no palco se expõe como se não tivesse corpo: como se não usasse boca nem ouvidos, como se não gastasse língua e nariz... Além de tudo, a palavra se mostra como se não levasse olhos! A palavra no palco é livre como palavra cega.

No escuro do palco, onde há menos escolhas, a palavra canta em liberdade. Como se lhe faltasse horizonte – mas também como se não lhe envolvessem, jamais houvessem lhe envolvido, um único muro, alternativas bifurcando-se, limites de qualquer natureza.

A liberdade da palavra é aquela que escapa inclusive ao instinto. O instinto é obediente. A palavra que sobe o palco desobedece. Comete o desatino premeditado. Presa do corpo e livre dele, a palavra traz belo paradoxo: para cumprir um roteiro, descumpre outro. Adensa a vida pairando acima da mera sobrevivência.

A palavra no palco é nua sem saber que a nudez existe. Por isso mente com sinceridade, mente e convence – quando lhe emprestam ouvidos, olhos, nariz e boca, o resultado não pode ser outra coisa senão a verdade.

A mudança se faz com a palavra. Da guerra à paz, a palavra atravessa um campo de batalha. Prisioneira, a palavra cala quando soa em vão. Sufocada, a resistência espera a hora da palavra. Mutilada, chora o que o grito de dor não recupera.

Na ira incontida dos que se anulam, na carga invisível das cicatrizes, a palavra exprime lamento e lembra o resquício do sonho roubado. O desespero vê de soslaio um consolo, com a lágrima que rola na face endurecida pela amargura.

O testemunho do horror consome de uma vez futuro e passado, deixando no lugar do indivíduo presente um estranho desfigurado a cada gota que passa. A palavra não cura, não traz de volta – mas busca no sonho a costura do ser desencantado.

A justiça que importa vem edificada pela palavra. Para dizer da igualdade no sofrimento, na impotência, na vergonha. Para ecoar essa igualdade se a palavra é uma ordem – ou quando é mais imperativa, explode em forma de arte.

Salvo-conduto em branco, a palavra no palco conduz e corrige a trama, de ato em ato.


Tempos de paz (Brasil, 2009)
Direção: Daniel Filho.
Com Tony Ramos e Dan Stulbach.

7.8.09

Teatro do absurdo

Com o sonho de virar protagonistas da história nacional, jovens chineses levam o entusiasmo de um grupo de teatro universitário para o movimento de resistência contra a ocupação japonesa durante a Segunda Guerra Mundial. A glória quente do aplauso é descartada em favor da expectativa pelo julgamento frio, a glória póstuma, porém duradoura, da História com “h” maiúsculo.

O fingimento artisticamente praticado desce o tablado para ganhar o lado de fora. A arte do ator deixa de ser um episódio cercado de rituais, transformando-se em instrumento de um ideal, a serviço da lógica da força máxima contra o inimigo. Assim, a causa do aniquilamento do outro, do assassinato brutal em nome do bem comum, é o desfecho esperado, ainda que adiado, em cada encenação.

A espiã disfarçada que se aproxima do alvo para atacá-lo, apaixonando-se e se deixando apaixonar por quem odeia, não faz uso da artimanha impunemente. O conflito a persegue. O sentimento simulado perde terreno. Uma nova gama de emoções aflora, advinda de reações imprevistas aos atos pré-programados.

Ao empurrar a verdade para a fogueira, a mentira também se queima. Se a aparência maquinada precisa ser perfeita para que a armadilha funcione, sob as cinzas do fingir constante, toda aparência é mentirosa. E a própria habilidade de ver, submetida à vontade de mentir, mal distingue um palmo adiante do nariz.

Tal ruptura entre a arte e a vida, aberta com violência de modo a permitir a infusão de uma na outra, feito matérias distintas, pode deixar em estilhaços a imagem que o sujeito tem do mundo e de si. Quanto mais fundo o mergulho na aparência criada, maior fica a distância entre a identidade e a falsificação dela.

Basta desconfiar de um fingimento e a realidade se desfoca: cada ponto refletido pelo avesso revela superfície opaca, de luz ausente. Na novela Um, nenhum, cem mil, Luigi Pirandello escreveu:

“Quando me punha diante de um espelho, acontecia uma espécie de sequestro em mim, toda espontaneidade acabava, cada gesto meu me parecia fictício ou postiço. Eu não podia me ver vivendo.”

Esse auto-sequestro decorreria da visão inesperada do hábito invisível que nos ata. Imagine o exercício fatigante de agir como se estivesse sobre um palco, sem palco; defronte ao espelho, sem espelho. Não apenas cada gesto seria acompanhado como se fosse ficção, mas o próprio pensamento, a fim de se passar por verdade, assumiria a condição de pensamento postiço de um personagem em ação.

Desejo e perigo (Lust, caution, China/EUA, 2007)
Direção: Ang Lee.
Com Tang Wei e Tony Leung.





1.8.09

De paradigma a piada














As restrições para entrar e viver em terra estrangeira são um sinal desconcertante do descompasso entre a política e o espírito de nossa época.

A burocracia resiste, por natureza, à disposição de mistura e convivência, cuja negação é anacrônica num tempo em que até as gripes tratam o planeta como um lugar só.

Existem dificuldades práticas para uma “abertura geral dos portos” que faça da patrulha de fronteira coisa do passado. Massas de jovens desempregados adorariam a chance de emigrar em busca de trabalho. Legiões de refugiados espremidos nas zonas de exclusão abraçariam a possibilidade de retorno e a liberação de um destino possível.

Há certamente milhões de pessoas, hoje, que correriam aos portões nacionais abertos feito ávidos consumidores avançariam numa loja em liquidação. No primeiro momento, é provável que algo assim acontecesse. Mas depois, esgotada a ânsia inicial, é possível imaginar que os fluxos para os locais mais cobiçados encontrassem seu equilíbrio, amenizando o susto dos autóctones em face das “invasões bárbaras”.

No fundo, a construção de muros, cercas, barreiras e postos contra o livre trânsito do cidadão é a grande contradição do discurso globalizante. A ilusão de separação é tão antiga quanto a certeza de segurança dentro das cidades muradas na Idade Média. Mas a sensação de segurança segregada proporcionada pela exclusão é vergonhosa. A doutrina da segurança quer impor a paz pela força, o que é logicamente absurdo. A paz não está dentro das fortalezas. A paz é quando se pode ir ao lado de fora sem medo, quando a relação com o outro não é discriminatória.

O controle de entrada e saída dos países deve assumir novos padrões no terceiro milênio. O documento será solicitado como informação, não para constrangimento, tampouco cerceamento. A vigilância do século 20 e dos primeiros anos do 21 será entendida, lá na frente, com um olhar parecido ao que lançamos aos nossos antepassados, para os quais o estrangeiro era apenas um prisioneiro de guerra sujeito à escravidão.

A transição para essa nova realidade, em que o espaço de liberdade se globaliza, conferindo à cidadania o status planetário, já começou. É possível percebê-lo no instante em que o carcomido paradigma do visto de permanência vira motivo de piada – na comédia, no riso fácil sobre o ridículo, sobressai o reconhecimento da mudança em curso.


A proposta (The proposal, EUA, 2009)
Direção: Anne Fletcher
Com Sandra Bullock e Ryan Reynolds.

25.7.09

A música da letra

A pausa é um silêncio por onde passa a respiração. O verso: caminho de silêncios. Pela voz o verso respira, fala ao átomo despertado.

Na respiração compassada a melodia aparece, necessária. A poesia salta na pausa que ressoa, na garupa do verso musicado.

Essa coisa viva enquanto ausente, pura quando misturada, não é vista senão distante. A trova é maior que o trovador, ainda que ele sobressaia somente se a trova existe.

Como tempo filtrado no pulmão, a mistura que vem da voz ritmada em prol da palavra apura no verso a fusão entre o som e a letra soprada, a nota e a frase montada, o leitor e o coro da multidão. Cantar é mais do que ler – é achar na harmonia do ar a escrita em ondas de canção.

Lugar em que a letra se encaixa, o caminho de silêncios ganha direção, a música dá forma à palavra como se não fosse possível distingui-las. Porque a palavra é imagem que não tem forma, e a música, forma que não tem imagem. Da união nasce um significado. Reconhecemos na letra a melodia, e vice-verso, feito a expressão de uma coisa só.

Em tal encontro, o alfabeto não disputa com a partitura. Os sinais não operam em planos iguais. São linguagens que se entendem sem ser a mesma linguagem. Sinais estrangeiros referindo-se ao mundo sem dividi-lo em reinos apartados, nem dimensões paralelas. O real expandido ao infinito – o território da poesia.

A exploração do território pode resultar na descoberta de faces do tempo ao longo do caminho. Entre elas, a brevidade do sopro, uma razão suficiente para evitar discussões estéreis, para Adriana Calcanhoto. A evidência do passado, onde tudo espera, já que o futuro não é mais que uma brincadeira em que se tropeça, segundo Tom Zé.

Ou o desejo voraz, que cresce e fortalece o coração que consome e também é consumido, presente no poema de João Cabral, Os três mal-amados, declamado por Lirinha:

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato.
O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço.
O amor comeu meus cartões de visita.
O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.
O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas.
O amor comeu metros e metros de gravatas.
O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus.
O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.
O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas.
Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X.
Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.
O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia.
Comeu em meus livros de prosa as citações em verso.
Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.
Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete.
Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.
O amor comeu as frutas postas sobre a mesa.
Bebeu a água dos copos e das quartinhas.
Comeu o pão de propósito escondido.
Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.
O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.
O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas.
O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras.
Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.
O amor comeu meu Estado e minha cidade.
Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré.
Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés.
Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia.
Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.
O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas.
Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam.
Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta.
Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.
O amor comeu minha paz e minha guerra.
Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão.
Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

Palavra (en)cantada (Brasil, 2008)
Direção: Helena Solberg.
Documentário com as participações de Adriana Calcanhoto, Tom Zé, Lirinha e Chico Buarque.

7.7.09

A verdade ideal

Como você inventaria o que não existisse? Como entenderia ao cruzar no meio da rua com uma idéia perfeita? Nem tudo que se idealiza é pleno desejo, ou reflete somente o plano polido do espelho.

Ela é aquela que você vê, mas seu vislumbre ultrapassa o conceito da visão. Porque ela é, pra você, bela e sublime. A beleza dela lhe parece o mero conduto do que não se exprime sem se perder, e não se percebe sem um grande susto.

Ela lhe perturba, e por perturbá-lo assim tão claramente é que a existência dela lhe confronta. Você percebe e se assusta. Você pára e escuta, na esperança de que a ilusão se revele, e se revelando, fuja. Mas no íntimo você não quer a fuga, quer o oposto da fuga.

Um senso de realística eternidade toma conta de você ao estar na presença dela, e você imagina o quanto seria bom e fácil e simples respirar a mesma atmosfera que ela por mais vezes, até por muitas vezes mais. E se isso transparece, ela apenas acha graça no momento em que você, crente que vivencia o eterno, não se dá conta de que seus braços e pernas viram mil braços e pernas e não decidem aonde ir. Ela acha engraçado o seu desalinho, sem sorrir, pois pouco importa: aquele é seu instante, não o dela, a sua eternidade, não a dela.

Ela não é fruto de sua imaginação – ela se transforma no fruto mais doce da sua imaginação a cada encontro, por mais fortuito, breve que seja.

Você imagina que esses encontros podiam depender menos do acaso. Que a sensação de eternidade que lhe toma junto dela abandonasse o realismo maluco que enlouquece, assumindo a leveza de um dia comum. Que o sorriso dela não fosse a estrela que explode irradiando luz e energia que você presencia num lance de sorte, e sim, a chama da fogueira ao seu lado, à noite.

Imagina os olhos dela prestando atenção em algo que pode ser dito uma extensão sua. Imagina os olhos dela prestando atenção no que ouve enquanto você lê. Imagina os olhos dela buscando no vazio uma ligação com o que você pensa, mesmo que você não tenha nunca como saber.


A mulher invisível (Brasil, 2009)
Direção: Cláudio Torres.
Com Selton Mello, Luana Piovani, Vladimir Brichta e Maria Manoella.


4.6.09

Onde o destino não está

Menina, o destino se esconde de você. Sabe aquela pedra lançada na água, da qual restam rápidas ondas? Mas a pedra, cadê?

A pedra atirada é o próximo passo, talvez o último lance. Quando o futuro é o alvo, menina, dificilmente acertamos... Dizê-lo sempre móvel, mutante, é dizê-lo instantaneamente fora de alcance. O que significa: impensável, a não ser na busca da fantasia, do alucinante. E dizê-lo imóvel, visível, menina, como se agora fosse, é imputar ao inexistente o status de fato pronto, como um efeito fechado, concluído – mas assim, terminado, será que ainda seria aquilo que pode ser?

Nas estrelas ou nas cartas, na espiralada trança genética ou nas linhas da mão, menina, o que se toma por escrito provoca uma aflição, sabe por que? A antecipação interfere na causa que a produz. O que se declara aparece. Assim é preciso alterar o dito, pra mudar o fato. Enquanto isso, menina, o porvir permanece o mesmo.

O que é diferente de pensá-lo idêntico em cada instante, independente do que se faça. A imaginação traça o rumo dos acontecimentos e desenrola um novelo que não pode enxergar onde acaba. O ponto de partida , menina, é mais importante – o ponto de concentração do que já houve, na inflexão do que será.

Esse negócio de destino é pra quem não sabe ou não quer saber onde está. Tem um poeta, Mário Quintana, que escreveu que, enquanto se teme o futuro, é o passado que nos atropela e mata. De olhos ocupados na miragem, menina, a gente esquece de onde veio e o que raios fazer aqui. Acorrentados à ilusória trama que inventamos, a verdadeira trama se esfumaça – ou escorrega na água, feito pedra em mergulho sem volta.

Planeje o dia seguinte, se quiser. Mas não o dia todo... Nem queira adivinhar a vida inteira. O futuro, menina, é um lugar pra ir sem pressa, e voltar logo. Como a intuição, segundo Quintana: quando você dá um pulinho no futuro sem demorar.

E por mais que você semeie, prepare, desenhe e tenha toda certeza, não se esqueça de que o destino adora fazer surpresa. O destino é assim – de repente o presente se revela e dá um susto na gente.

O destino, menina, não é o que você vê, nem vai sair de onde está.


Heróis (Push, EUA, 2009)
Direção: Paul McGuigan
Com Dakota Fanning, Camilla Belle e Chris Evans.


3.5.09

Simples não é fácil



Um alto grau de comprometimento com a realidade é esperado no inventário de perdas e ganhos da maturidade. Na idade da irresponsabilidade, o que se aguarda, e em geral desponta, é fantasia – a primazia da abstração sobre o concreto, do ideal sobre o possível, da imaginação sobre a razão.

Quando o pragmatismo precoce invade o território adolescente, questiona-se como preocupante a troca efetuada. Como se na apreensão primária do mundo, o universo racional em formação ainda estivesse tosco para conceber soluções rápidas, reações objetivas e respostas simples.

Atribui-se a Albert Einstein a compreensão de que tornar as coisas simples não é simplificar as coisas. Pois a simplificação pode levar ao erro comum de confundir o simples com o fácil. Nem sempre é assim.

Na adolescência, o cérebro dispõe de massa de fantasia suficiente para, talvez, produzir uma objetividade e uma clareza que, depois, na vida adulta, muitos encontram dificuldade em formular. Não por acaso, é também de Einstein a afirmação de que a imaginação é mais importante que o conhecimento. Mais importante para que? Para criar, para inventar escapes nos becos sem saída da razão.

O que seria impossível ao exame da mente madura, é apenas a conjectura de outra opção para aquela despojada da complexidade de visões de mundo entrecortadas. A experiência, de fato, pode atrasar, em alguns casos, ao invés de acelerar a decisão. Se depositar só obstáculos e distorções na capacidade de discernimento, a experiência pode mesmo impedir qualquer sucesso na escolha.

O aparente descolamento juvenil do plano real pode ser vantajoso na hora em que o maior comprometimento é requerido. Sem baú onde revirar, sem cicatrizes em que mexer, o ser imaturo dispõe de uma gama de possibilidades lógicas que não aparecem logo a quem possui a visão turva pelo acúmulo de material envelhecido.

Por outro lado, a imaturidade tem um prazo que o fardo temporão de responsabilidade, por si, não encerra. A luz da inexperiência é necessária, iluminando aquilo que falta, o caminho virgem, os tropeços e os desvios que fazem o crescimento.

Reconhecer um desvio é olhar de frente o presente, admitir o acidente e seguir adiante, ao som da simplicidade.


Juno (EUA/Canadá, 2007)
Direção: Jason Reitman
Com Ellen Page, Michael Cera e Jennifer Garner.

17.4.09

Retrato fiel

Invento em você uma extensão diferente, na contramão do que sou, por cima dos controversos contornos que me revelam igual. Por você, assim, me exponho com outra exatidão: não mais do esboço borrado, meio apagado de tanto ser visto, mas dos traços frescos, imprevistos em que ressurjo do teu borrão.

Porque te reconheço facilmente o meu retrato mais fiel, neste instante, neste agora, neste mundo, em cuja brusca presença volto a encontrar-me, compartilho a surpresa de outros ângulos, como se estivesse eu fora de mim ao deparar-me com a imagem tão nítida de minha alma em teu semblante.

A mesma história contada de outra forma não é a mesma história. Você me deixa à vontade em novos trajes, refigurado sem ter renascido, impregnado do ar puro que sorvo em seu louvor. Nem ligo se te chamam versão de antigo vício, se és a perfeição da trama aflitiva que parece findar com teu sorriso.

Você me conduz por caminhos conhecidos a lugares há muito esquecidos. Atravessamos parques públicos como se estivéssemos em labirintos, descobrindo atalhos, andando em círculos, achando a saída lentamente. A ansiedade do passo vai embora, na diversão garantida pela experiência duplicada: sabemos que não somos um, mas sentimos que não somos dois... E nessa hora fundamos uma espécie de consciência dupla.

De ausência dupla também. Fujo de mim e do mundo através de ti, sob a tua sombra me abrigo do engano e da dor do sol a pino. É outra a lucidez que me ofertas, é outro o brilho descido desse olhar que me conforta. O desejado encontro da segurança com a paz move-me na tua direção.

Utopia em carne e osso, você destrói o que me destrói, preenche o que me corrói, acende o que me ilumina. Lança-me fora do tempo, liberta-me o corpo do cárcere, recupera-me do desencanto de uma identidade perdida.

A necessidade da utopia é tamanha que chego a tomar a existência por uma referência estampada na tua face, um rastro invisível nos teus gestos, o alvo certo de todas as tuas ações. Da essência que te fiz, retomo o barro de que te faço, desenho-te à minha semelhança.

Será que me inventas na contramão do que és, sobre contornos apagados de tanto vistos? Serei o teu retrato fiel, neste agora, neste mundo?


Ele não está tão a fim de você (He’s just not that into you, EUA/Alemanha, 2009)
Direção: Ken Kwapis
Com Ginnifer Goodwin, Jennifer Aniston, Ben Affleck e Scarlett Johansson.

22.2.09

O poço e a árvore

Eles atingiram pontos opostos, um encolhido no escuro, o outro assustado lá em cima, feito dois bichos acuados, em fuga. Separados antes de consumarem a separação. Enquanto um cai do solo falso de uma armadilha, o outro sucumbe à paralisia comum ao último lance da escalada – e assim, um busca a luz que vem do alto, no momento em que o outro sonha com a segurança vertiginosa do chão.

Depois do caminho longo de mãos dadas, de repente se encontram como o fundo do poço e o alto da árvore, cada um no seu canto, sozinhos, perdidos, náufragos do olhar cujo relance, antes, significara a confiança de uma jornada sem riscos. O primeiro naufrágio, da paixão, fizera da união de dois uma ilha segura fora do mundo. Agora, o segundo naufrágio fez o mundo surgir de novo e a ilha sumir por desencanto.

O mais difícil é acreditar que não ocupam o mesmo lugar. Tudo o que queriam na partida era trilhar a mesma estrada, no rumo idêntico cujo destino não mudaria, desde que houvesse a ilha e a garantia de que o porvir imaginado não cederia à oxidação, não baixaria a guarda para invasores de sua pequena utopia. O mais difícil é acreditar que a utópica ilha desapareceu – ou, pior, que nunca existiu.

Uma descoberta se insinua na incredulidade dividida: descobrem que a ilhota de dois não suporta duas utopias.

Do alto da árvore e de dentro do poço, perguntam-se como foram parar ali. Seria possível voltar ao começo, retornar ao ponto em que os passos não tinham sido dados e, portanto, o destino não tinha saído ao seu controle? (Como se o destino apenas pudesse vingar enquanto não fosse, como se o futuro apenas valesse enquanto não chegasse.)

Onde estava o sonho que sonharam? Não se lembram... ou pelo menos, não se lembram da mesma forma quando, lá para trás, o que importava era apenas o outro, as mãos entrelaçadas e a extensa liberdade prometida a ambos.

O sonho unificado na ilha foi se modificando à medida em que a extensão livre ia se tornando mais curta e menos livre, preenchida pelos anseios, as metas imediatas, as carências e os êxitos de cada um. Os planos vagos e eternos do casal divergiram dos planos concretos e mutantes dos indivíduos, até que o sonho evaporou.

A paixão imortal não tardou a entrar em coma. O futuro idealizado em seu êxtase e glória se fechara num modelo intocável de realização conjunta, do qual dificilmente seria dito que estava, àquela altura, intocado. A ilha afundou no mar do real.

Restava uma ligação entre o poço e a árvore, à espera de um desfecho, uma resposta para o impasse – a ligação com o passado submerso na memória da pequena utopia.


Foi apenas um sonho (Revolutionary road, EUA/Inglaterra, 2008)
Direção: Sam Mendes
Com Kate Winslet e Leonardo DiCaprio.


30.1.09

O mundo não é nosso?

Há algo destoante na fertilidade de um planeta isolado, tão longe de planetas da mesma espécie como se outros nem existissem. Como se o homo sapiens não fosse como os outros seres, e não pudéssemos partilhar da engrenagem fértil que nos inclui sem um grande pasmo, antes de qualquer fascínio.

Saint-Exupéry escreveu: “Em um mundo em que a vida se une tanto à vida, em que as flores amam as flores no próprio leito dos ventos, em que o cisne conhece todos os cisnes, só os homens constroem a sua solidão.”

A singularidade da Terra eleva a “sensação térmica” do ser que dirige o olhar para fora da ilha planetária, da atmosfera de vida, e não vê nada ou ninguém no ponto mais remoto acenando com um possível resgate. E a solidão humana se crê, assim, universal.

Para não pensar no assunto, ou se consolar pelo silêncio, o macaco falante inventou a posse da ilhota terrestre. Virou o “rei da selva”, o “filho de Deus”, assumiu o controle do conhecimento e almeja a regência da natureza. Fez do privilégio da visão consciente o motivo bastante para se considerar “dono do mundo”. Fez da solidão implacável uma desculpa para agir como se estivesse, de fato, sozinho, no controle de um barco vazio à deriva no cosmo desértico.

A noção matemática de posse abrange as noções de inclusão e domínio, expressa na teoria dos conjuntos pela idéia de grupos maiores contendo grupos menores ou elementos individuais. Segundo tal fórmula, diríamos que a Terra é um elemento do homem? Ou que o homem é um elemento da Terra? O que parece sensato? Matematicamente, portanto, soa absurdo dizer “o nosso planeta” no sentido de referência a um objeto de posse humana.

Por outro lado, no reino natural – no conjunto maior da biosfera – que pensamos tutelar, a posse não é realidade incomum. A biologia é cheia de exemplos, e atinge os mamíferos autoproclamados “superiores”. A mãe que carrega o filhote tem por certo que o filho é “seu”, pela relação simbiótica estabelecida, ao menos até que a necessidade exija. A lógica persiste no habitat que possibilita a proliferação de gerações de uma mesma espécie. A Terra tinha os dinossauros, os dinossauros não tinham a Terra.

A relação da humanidade com o planeta que nos carrega é especial, do prisma de nossa aparente potência de modificação da realidade terrestre. Mas não somos os proprietários deste pequeno ponto celeste, e muito menos da vida que emerge, fenece e ressurge no intervalo entre eras glaciais. O que fazer com a não-posse? O que fazer com a desconcertante liberdade do homem animal?

A percepção de que o mundo não é nosso pode gerar uma revolta inútil contra fatos inexoráveis, e apenas acelerar a extinção humana. Ou pode trazer um pouco de humildade à celebração de nossa virtual solidão – e aí, recordemos outras palavras do mesmo Antoine de Saint-Exupéry: “Que misteriosa ascensão! De uma lava em fusão, de uma lama de astro, de uma célula viva germinada por milagre, nós saímos e pouco a pouco nos elevamos até escrever poemas e pesar as vias-lácteas.”

Até onde vamos nessa ascensão, até onde vinga a nossa germinação, qual a extensão do milagre humano ou a duração da linha que nos trouxe do acaso – são questões que escapam do nosso campo de visão. Mas esse alcance depende, possivelmente, de nossa capacidade de superar a vontade de poder provinda de um notório complexo de inferioridade que acompanha toda solidão.


O dia em que a terra parou (The day the Earth stood still, EUA, 2008)
Direção: Scott Derrickson
Com Keanu Reeves, Jennifer Connelly e Kathy Bates.
Refilmagem de clássico da ficção científica de 1951.



4.1.09

Castelos de areia

Nesse estado alterado de consciência a realidade é o que menos importa. O mundo reduz-se a uma única visão, que consegue dar forma e cor inéditas ao mundo. A novidade desaparece com a desilusão, e com o retorno do velho cenário em preto e branco capturado pelo olhar a maior parte do tempo.

De um ponto de vista externo, o apaixonado está quase sempre enganado. Aquilo que lhe aparece não é bem o que parece, aquilo que sente não é tudo, e aquilo que diz não é só o que devia dizer. Há muito mais para notar e explorar do que supomos quando somos monotemáticos.

A restrição do significado – o universo cabe na luz de seu rosto, no som de sua voz, na presença de seu corpo – é o maior engano. O chão que some sob os nossos pés ou se apresenta como nunca antes, com tal solidez, tem o piso falso. E sabemos disso. Eis o pior. Tudo faz tanto sentido de uma hora pra outra que não pode estar certo, seria fácil demais. Seria bom demais: sem coisas incompreensíveis, sem perigos ameaçadores, sem qualquer sombra por perto.

O que não limita à mentira o objeto valorizado pela febre amorosa. O engano das paixões não as torna erros puros – assim estaríamos cometendo, aliás, o mesmo erro duas vezes (e de fato, cometemos, várias vezes). Mas se há mais do que o equívoco, é talvez porque seja algo essencial, exposto à falsificação. Algo cuja descoberta muda o mundo aceito e replicado no modo monótono da existência. Que ironia – a paixão monotemática retira a razão da monotonia...!

De onde vem, como surge e como some a essência das paixões é um mistério cujo deciframento pode não nos interessar. Basta-nos saber que a essência oculta dá-nos a graça de ser ativada e esmorecida em pontos diversos da vida.

A pressa dos apaixonados, descabida para os que espiam de longe e juram conhecer de cor o enredo farsesco, é pressa justificável. Pois é preciso se atirar à experiência da paixão, antes que a febre recue, o delírio passe, a maré avance e derrube a construção delicada, perfeita, de beleza esculpida sob medida na areia do acaso.


Amor sob medida (The best man, Inglaterra/EUA, 2005)
Direção: Stephan Schwartz
Com Seth Green, Stuart Townsend e Amy Smart.


14.12.08

Um objeto que vê

O movimento atiça a visão. A lente natural aproveita os aparelhos simuladores do movimento lento, e a edição cria o ideal e ilógico movimento estático, do ato capturado em pleno esquecimento da ação.

É preciso ver mais de perto o que a velocidade torna invisível, pelo tempo escorrido à revelia do olhar atento ao menor deslocamento. Logo a atenção é angústia. Os objetos se deslocam à velocidade da luz. Então, ou se instala uma fadiga imensa, em decorrência da maratona ansiosa, e a desatenção volta a ser a regra, ou um desejo insolente aflora: o insolente desejo de que o tempo decorra mansamente, e abra com vagar as cortinas do encantamento, para que apareça o cenário deslumbrante submerso na pressa do olhar comum, desatento, feito beleza atropelada pela cegueira de dar de ombros ao tempo.

O modelo do belo é impassível, imune ao desgaste ordinário, embora a beleza mesma não passe de sonho momentâneo, como clarão que confunde num relance. Daí a vontade de eternizar seu momento, de “congelar” a fugitiva imagem entre as frestas do tempo. Para tanto, ao contrário do que se pensa geralmente, é posta para girar, como nunca, a engrenagem que conta cada milésimo de segundo, bem devagarinho, sim, bem devagar, para que se possa captar tudo, todos os detalhes imaginados, inventados quando as coisas passam correndo diante dos olhos.

Porque as coisas passam correndo, é preciso ver mais de perto, para fazer existir o inexistente, descobrir o que se esconde, não na penumbra, não na noite, mas no meio do dia, no meio da rua: o que se esconde sem cerimônia, escancaradamente, no acelerado desfile desenrolado à frente do nariz. Na passarela das coisas reais, um desfile de alucinações!

Por isso a questão não é parar o tempo, a questão é parar o mundo alucinadamente exposto ao observador que vive o mundo que vê. O tempo é uma janela que dá pro mundo. A impressão, muitas vezes, oposta – o mundo dando vista pro tempo – destrói a ventura da contemplação, corroendo o prazer contemplativo, instalando no lugar o quadro estranho, cujo desenho, à falta de melhor traço, assume a forma de tempo perdido.

O movimento atiça a visão por um bom motivo. O olhar não exprime uma pura e divina subjetividade. Cada olhar que pára o mundo também faz parte do real mal percebido. Cada olhar é um objeto à semelhança do que espia. O olho é um objeto que vê. E ao ser assim, irá negar ou permitir ser visto como enxerga os outros. Para proibir qualquer aproximação, ou ser abordado, se deixar conhecer pela luz alheia, com a lentidão do tempo conquistado no encontro de instantes correspondidos.


Cashback (Inglaterra, 2006)
Direção:
Sean Ellis
Com Emilia Fox e Sean Biggerstaff.


7.12.08

A liberdade limitada

Conhecer o mundo a fundo é suplantar o desejo de conhecimento. Jamais o todo será dado. Adivinhar o que vem pela frente é um esforço, e ainda assim, mais tarde, o que passou não se exibe em seus detalhes. As impressões deixadas para trás podem ser inferidas de outros ângulos, de outros tempos, formando um esboço mais fiel. Mas o esboço muda de instante a instante, e mesmo nos traços que permanecem, o mundo será diferente de outro ponto de vista.
Na posição ocupada em cada ponto, o pensamento se move – passeia, corre, salta, volta, voa. O pensamento percorre os túneis da mente, os mais recônditos túneis, sem descanso. Porque o pensamento está livre, o pensamento é livre... e na medida em que somos o que pensamos, sim, podemos ser livres. Até para conceber e temer condições absolutas, como a própria liberdade.
No reino do absoluto não existe concessão, nem meio-termo. É tudo ou nada: liberdade ou opressão, liberdade ou vazio, liberdade ou sofrimento. Mas de ser absolutamente livre, advém o peso de uma carga absoluta de liberdade, uma carga insuportável de possibilidades. Assim, no círculo absoluto, a liberdade é opressão, vazio, sofrimento.
A liberdade “para ser possuída, deve ser limitada”, ponderou Edmund Burke, político e pensador britânico do século 18. Naquela época, quando as paixões de uma duquesa – e os desejos e sonhos de qualquer um – se defrontavam com o status quo moral, os limites eram maiores do que hoje, ou apenas mais evidentes? A limitação garantia a posse do território marcado como livre? Ali ou em qualquer data, nos territórios demarcados, a liberdade vige?
Para o renascentista Montaigne, ser livre é “poder tudo sobre si”, ou seja, demarcar a própria liberdade. Será que “poder tudo” não é querer demais? “O que depende de nós (a vontade, o pensamento) depende de mil fatores que não dependem. Quem se escolhe?”, recorda um filósofo francês de nossos dias, André Comte-Sponville, seguidor do mestre Montaigne. O livre-arbítrio, para Comte-Sponville, é uma ficção: “Uma vontade indeterminada, que poderia querer qualquer coisa, não seria mais uma vontade, ou não quereria nada! No máximo, podemos nos libertar um pouco das determinações, ou de algumas delas, que pesam sobre nós... Trabalho infinito: seria preciso libertar-se de si, o que não é possível.”
Talvez seja – ao menos um pouco. O pensamento se estende à ação, e o ato consumado de alguma estranha forma liberta o pensamento. Poder sobre si: poder sobre o mundo que responde ao agir, ao pensamento libertado. Menos necessidade que contingência, menos causa que efeito.
Imagem ilusória ou impulso para a ação, o fato é que o homem parece submetido à liberdade assim como – usando fórmula kafkiana – o relógio parece submetido ao tempo. Se o tempo estivesse para o relógio como a liberdade para o ser humano, os ponteiros da liberdade não passariam de um artifício, feito ponteiros de um relógio, para calcular o incalculável, para pensar o impensável. Por um mecanismo de projeção, o relógio faz o tempo existir, e a liberdade, limitada, se faz real.


A Duquesa (The Duchess, Inglaterra/Itália/França, 2008)
Direção: Saul Dibb
Com Keira Knightley e Ralph Fiennes.


21.11.08

O ego da paixão

Na busca de uma causa para grandes efeitos, achamos que vem do lado de fora o que se pronuncia em nós, agudamente, por dentro. Os olhos explodem, fixados, enquanto o pensamento se remexe no esqueleto, inquieto. A nova disposição pede reações físicas, concretas, que exprimam a forte sensação de mudança. O indivíduo se percebe num mundo dinâmico e deseja participar dele – aliás, deseja mais: quer tirar do mundo o velho molde, e fazer com as próprias mãos uma realidade menos estranha à imagem que enxerga em seu espelho.

A contínua vertigem apaixonada é o segredo dos grandes artistas, para Unamuno. Talvez seja. Mas a vertigem cobra o seu quinhão. A paixão é um estado alterado, cujas perturbações se manifestam à flor da pele em simultâneo a tempestades íntimas. O preço cobrado varia do breve deslocamento de rota a um longo período à deriva. Sim, o apaixonado é capaz de impressionantes feitos. A paixão do gênio não deve ser confundida, contudo, com o gênio da paixão. Nem todo fruto de almas agitadas é reconhecido depois como fruto genial.

Já no palco do romantismo amoroso, a intensidade do encontro desvela a carne da paixão vestida nos trapos da ilusão – de pares que se fundem ou se opõem, em harmonia ou brutalidade. A paixão extrema tende ao fim no limite do mesmo horizonte que a deixa viva. Nesta situação, o crime passional realiza a metáfora do amor perfeito na potência máxima do ego em descontrole – onde o pensamento “morro por ti” não hesita em virar “morres por mim”.

Na Folha de São Paulo, Contardo Calligaris, ao comentar o filme, diz que a paixão é tentadora porque representa a idealização da vida plena, da vida intensa. De fato. E essa idealização também é a da experiência culminante do ego na escalada de si mesmo. Os superlativos não escondem: são aventuras de egos as paixões. Se o Dr. Contardo avisa que não basta esbarrar nela, “é preciso encará-la quando ela se apresenta”, entre outros motivos, é porque encarar a paixão significa mergulhar no self, no desejo, na possibilidade de ser outro, com a esperança de transformação radical.

Nas paixões, o indivíduo vê a chance de trair-se, de abandonar-se, como se um aguardado caminho de fuga se abrisse... Em pura contradição, é claro, com a paixão convicta de que jamais se foi tão sinceramente verdadeiro. Essa esquizofrenia da paixão, quando não levada demasiadamente a sério, permite que se brinque com ela, como escreve Calligaris, “sem perder a ilusão da liberdade” de que necessitamos.

Pois em cada paixão se traduz um indivíduo – somatório único de medos, sonhos, certezas e delírios. Para cada ego, um coração, de onde partem sentimentos e atos, ou se desdobram palavras e obras no deslumbre que provoca o surgimento de si.


Vicky Cristina Barcelona (Espanha/EUA, 2008)
Direção:
Woody Allen.
Com Scarlett Johansson, Rebecca Hall, Penelope Cruz e Javier Bardem.


22.10.08

Destinos cruzados

A pergunta – E se eu não for o melhor para esta pessoa, e tudo o que conseguir dar se revelar menos do que ela mereceria ter? – é presunçosa na melhor hipótese, covarde na intermediária, e pura inversão narcísica na pior delas.

A presunção é leve diante das outras porque advém de uma preocupação sincera, ainda que desmedida. O presunçoso ou a presunçosa “estão se achando”, mas no fundo sabem que a resposta esperada não guarda relação concreta com a pergunta formulada. É a proximidade que se deseja, e nenhum espírito superior justificaria um afastamento em nome desse receio.

A covardia está no meio do caminho entre a idiotice insegura e a adoração de si mesmo. Os covardes amam sofrer antes de sofrer por amar, e isso diz muito do romantismo choroso dos poetas lamurientos, tanto quanto da síndrome shakesperiana dos amantes solitários. Lamúria e solidão que não se observam no caso da poesia que canta a paixão sorvida até a última gota, ou da separação que sucede os encontros bem aproveitados.

O narcisista incurável, por sua vez, acredita na pergunta que se faz, só que a compreende pelo avesso: ninguém será capaz de lhe dar o que exige o seu ego hipertrofiado. Diante do espelho, a perspectiva de trocas recíprocas, perdas e renúncias não se apresenta como algo aceitável. Além de egoísta, Narciso é presunçoso e covarde, e por isso esta é a pior hipótese para a raiz da questão formulada.

Também se pode alegar a intrincada teia das circunstâncias, como sempre, para pular fora ou não assumir o risco de uma relação. A desculpa das circunstâncias serve a todos, como se não fosse exatamente devido às circunstâncias que o pensamento precisasse organizar-se para agir. Atenuantes não alteram as conseqüências, assim como o julgamento póstumo não muda qualquer decisão.

A rede circunstancial que envolve a dúvida sobre “o melhor” para a outra pessoa ainda se vale do argumento do tempo, ou mais precisamente, do timing, utilizado como túnel de fuga. A força do timing é avassaladora, pois, como certas teorias, inexiste o contraponto, e o que é dito se basta. Mas se você não constitui o melhor para o outro agora, poderia ser outra hora? Poderia ter sido antes? Ou vir a ser em um mês, ou em dez anos? O argumento do tempo é circular e não conduz a razão alguma.

A sorte é que esse tipo de pergunta é inócuo quando o monólogo à frente do espelho é deixado para trás graças à presença salvadora de quem importa – aquela outra pessoa que decifra em nós a cretinice de querer dirigir o destino alheio a partir do centro confuso do nosso incerto destino.


Amigos, amigos, mulheres à parte (My best friend’s girl, EUA, 2008)
Direção: Howard Deutch
Com Kate Hudson, Jason Biggs e Dane Cook.