14.6.12

O futuro está nos olhos deles


Com vontade de influir nas decisões tomadas para mudar o mundo, 
milhares de jovens participam da Rio+20


Muitos deles nem eram nascidos em 1992, quando o Brasil recebeu pela primeira vez um encontro de cúpula internacional sobre o meio ambiente. A maioria dava os primeiros passos ou entrava na pré-adolescência, e nem sonhava em fazer parte daquilo duas décadas mais tarde. Mas a geração com menos de 30 anos é a grande depositária da esperança dos rumos da Rio+20, e por isso a voz da juventude terá grande destaque no evento.

Ontem, foi encerrada a reunião do grupo de interesse de crianças e jovens da Organização das Nações Unidas (ONU), no Centro de Convenções Sul América, no centro da cidade. Dois mil jovens de 120 países estiveram presentes, expondo seus problemas e ideias, discutindo experiências e ajustando como levar a visão deles para o palco oficial, no Rio Centro, onde terão papel garantido, e para o público que irá acompanhar tudo pela TV e, principalmente, pelas mídias sociais.

O grupo de interesse de crianças e jovens foi criado pela ONU em 1992, junto com outros oito grupos, entre os quais os de povos indígenas, de empresários e de organizações não-governamentais. Os grupos compõem espaços oficiais de diálogo entre as Nações Unidas e a sociedade, sendo coordenados por entidades sociais e ONGs, sem o controle direto da ONU. Antes de cada conferência da entidade, o grupo de interesse de crianças e jovens realiza um evento prévio, de capacitação e planejamento. “É para fazer o pessoal entender o que está acontecendo, como funcionam os instrumentos de negociação na ONU, e quais os canais de influência possíveis”, explica Pedro Telles, um dos organizadores da Youth Blast – nome dado ao encontro prévio dos jovens para a Rio+20. Pedro tem 24 anos e integra o Vitae Civilis, fundado antes ainda da ECO92, em 1989, em São Paulo, e voltado para “a governança da sustentabilidade sócio-ambiental”, segundo o site da organização.

“A gente conseguiu atingir um público que não é envolvido nas negociações da ONU”, disse Juliana Russar, 27, voluntária na Youth Blast. “Não é só os governos que vão tomar as decisões, é importante a participação de toda a sociedade. Organizações e indivíduos que façam parte dos grupos podem influenciar as decisões da ONU”, acredita Juliana, coordenadora de uma entidade criada em 2008, voltada para a “busca de soluções pra crise climática”, segundo a expressão dela. Chama-se 350.org, em referência à concentração de carbono na atmosfera considerada segura pelo cientista da Nasa, James Hensen, de 350 parte por milhão (ppm). Atualmente essa concentração está em 400 ppm. Na Rio+20, Juliana e seus amigos da 350.org promoverão uma campanha pelo fim do subsídio aos combustíveis fósseis.

A estimativa é de que cerca de três mil jovens participem da Rio+20 a partir de hoje, quando começa de fato a programação oficial, enriquecida por uma programação paralela repleta de debates e exposições em vários locais da capital fluminense. Na Cúpula dos Povos, que acontece no Aterro do Flamengo, o Acampamento Internacional das Juventudes promete ser um dos focos de agitação e ativismo. Por outro lado, as delegações oficiais não iriam desperdiçar o apelo que vem dos olhos que miram o futuro. O governo brasileiro tem na delegação 12 jovens, cuja missão será tentar traduzir o pensamento das novas gerações do País, que será o centro das atenções do planeta nos próximos dias.

A energia abundante da pouca idade também está sendo aproveitada no trabalho voluntário na gestão de um evento de grande porte como a Rio+20. São 1.200 voluntários oriundos de universidades e escolas técnicas de todo o Brasil, além de alunos da rede pública do Rio de Janeiro. No encerramento da capacitação, no Museu de Arte Moderna do Rio, o ministro Laudemar Aguiar, coordenador do comitê de organização do evento, cuidou de estimular mais os jovens colaboradores: “Vocês são multiplicadores das ideias de sustentabilidade, de inclusão social, de acessibilidade e de erradicação da pobreza”. 

E são mesmo. Mas a ocasião é importante demais para que se percam oportunidades de abertura de novos caminhos, ainda que se tenha a continuidade de um debate que vem de pelo menos quatro décadas, desde Estocolmo, em 1972. Na Rio+20, o melhor é que nas faces da juventude se veja a expressão de seus anseios e sonhos, a mobilização da liberdade criativa que impulsiona o conhecimento, e não apenas a condução de planos ultrapassados que caducaram sem jamais terem sido postos em prática. Que sejam multiplicadores das próprias expectativas, e não meros repetidores da monotonia dos discursos frustrados dos embaixadores da diplomacia ambiental. 

(Jornal do Commercio, 13/06/12)

Foto: Youth Blast/Fora do Eixo

27.5.12

O vício de si


O silêncio do hábito esconde o vício que parou num porto do acaso


Quando a silenciosa trajetória da rotina é interrompida, explodem restos deixados para trás, e surgem, como fantasmas, rotas perdidas.

O silêncio do hábito esconde o vício por baixo do tapete do tempo. Somos dependentes dos gestos que repetimos, das desculpas que damos, do prazer compensatório que nutrimos, do pensamento travado no mesmo ponto, há anos sem sair do lugar – mesmo que tenha parado ali por acaso, e longe de ser firme convicção, continua frágil como aportou.

A instabilidade dos portos existenciais é típica dos costumes de uma época retratada mais por aquilo que falta do que pelo que tem, mais pelo que se destroi do que pelo que se conquista, mais pelo que é consumido do que por outro qualquer motivo.

Então, o vício da solidão no seio da multidão se torna escudo obrigatório até no desfrute das companhias fugazes, das amizades interessadas e das relações íntimas criadas para a satisfação da rotina.

E o que aparenta ser escape do vício é, de fato, a manifestação da sua essência.


(Crônica sobre o filme Shame, de 2011, dirigido por Steve McQueen)

8.4.12

Os aliens do Xingu




Uma cultura alienígena desconhecida, que modifica tudo por onde passa, espreita o território ocupado por outra, que tira a subsistência do ambiente sem transformá-lo drasticamente. Os alienígenas aproximam-se do habitat dos nativos com a adrenalina em carga máxima. O coração dos aliens dispara ao primeiro contato com os gritos animalescos que denunciam a presença nativa. Uma torrente de medo e excitação percorre a circulação sanguínea dos visitantes, que se tomam por conquistadores de um pedaço de planeta virgem, isolado como uma ilha que precisa ser anexada ao continente – mesmo que isso seja logicamente impossível.

Os aliens vestem trajes pesados, inadequados para aquela ilha distante. Estão deslocados mas agem como se os perdidos fossem os outros. Avançam sobre fronteiras que jamais pisaram como se os estrangeiros fossem os outros.

Uma desproporção óbvia separa aqueles dois mundos. O desconforto do primeiro encontro é mútuo. A desconfiança é quebrada pelo ímpeto do alienígena conquistador, que quer a simpatia do conquistado antes de iniciar a invasão definitiva. Badulaques e bugigangas oferecidas em troca de confiança estimulam a boa índole dos nativos – ou selvagens, como são chamados pelos aliens.

A estranheza do contato permanece até o ponto do arrependimento. O que era para ter sido deixado intacto se desmanchou ao toque do olhar alheio. Dois universos não se misturam impunemente. E se havia algo que morreu pra sempre, foi por que algum outro apareceu e matou.


Xingu (Brasil, 2011)
Direção: Cao Hamburguer
Com João Miguel, Felipe Camargo, Caio Blat e Maria Flor. 

17.3.12

Democracia fisiológica




Uma das faces do pragmatismo, o fisiologismo abusa da repartição de cargos e verbas por critérios políticos, e rende, como frutos, apoio no Congresso e ampliação de alianças eleitorais. Governos montados sob bases fisiológicas, mais atentos a demandas privadas do que às necessidades da população, tendem a exibir altos graus de ineficiência e de corrupção. Seria um mal da democracia? Em entrevista à rádio JC/CBN no sábado, 11, o cientista político e professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Marco Aurélio Nogueira, disse que, “antes de ser o preço de um governo de coalizão, é o preço de um governo democrático. O que se espera da democracia é justamente esse tipo de negociação”, disse Nogueira.

O professor comentou na ocasião a derrota do governo no Senado, que reprovou a indicação da presidente Dilma Rousseff para o comando da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). Dias depois, Romero Jucá, virtual mentor da rebelião, perdeu o posto de líder no governo no Senado. Jucá foi líder dos governos de Fernando Henrique, de Lula e de Dilma. Deve ser um especialista na arte da coalizão e nos insondáveis caminhos da governabilidade, assim como o seu partido, que conta com o vice-presidente da República. Quando candidato, Michel Temer declarou que a vice e a participação no programa de governo eram os únicos compromissos do partido para a formação de chapa. “Não há nada disso de partilha de cargos. O que o PMDB vai fazer é colaborar com o governo. O PMDB repudia essa coisa do fisiologismo”, afirmou em um debate, em 2010.

A derrubada da indicação oficial para a ANTT revelou a crise na base aliada, e levou à troca dos líderes no Parlamento. Além de Jucá, Cândido Vaccarezza, do PT, foi destituído de suas funções na Câmara, num lance duplo transmitido como gesto de autoridade de Dilma. Debelada a crise, se assim o for, retorna o jogo do fisiologismo. “Temos um sistema que facilita a negociação em torno de vantagens e de poder, e parlamentares e partidos aceitam fazer parte desse jogo”, afirmou à JC/CBN Marco Aurélio Nogueira.

O PMDB, que sempre reclama, mesmo quando “repudia”, já havia se queixado da “gula” do PT por cargos, que estaria ameaçando a fidelidade da base aliada. Como se o PMDB não estivesse sempre lá, desde Sarney, abocanhando fatias generosas do orçamento e dando a sua contribuição inestimável para os maus serviços da máquina federal. Em artigo publicado no jornal O Estado de São Paulo, o historiador Marco Antonio Villa chamou atenção para o fato de que a disputa fisiológica escancarada, do primeiro escalão até as empresas estatais, é cada vez mais considerada natural. Mas a banalização pode cair diante dos problemas na economia, que “não está mais sustentando o presidencialismo de transação”.

Ao se admitir com tanta naturalidade o fisiologismo como elemento democrático, permite-se o alargamento ético que descamba na degeneração da própria democracia. E se embarca no relativismo que não vê com estranheza os movimentos torpes de uma democracia fisiológica.

(Editorial do Jornal do Commercio/PE, 17/03/2012)

Foto: Roberto Stuckert Filho/PR





22.2.12

Sorrisos nus


Disposição de proximidade, partilha, prazer e paz


No resto do ano as faces encobertas pelos panos das convenções, do atropelo de afazeres e pelos mantos transparentes das inibições, disfarçam a expressão solta agora, sem vergonha nem economia. O Carnaval expõe sorrisos nus.

O menino no colo do pai está desconfiado, só ensaia careta sem graça, franze a testa, vestido de super-herói. A irmã, de fita nos cabelos, faz pose com uma alegria serena. Os pais, de óculos escuros para encarar o sol de Olinda, não escondem o orgulho e escancaram a felicidade na foto de álbum de família.

Vestida de coelhinha, a menina ergue os ombros e sorri numa esquina do Recife Antigo. A mãe que não desgruda aparece no Marco Zero, de boina e um sorriso nas cores da bandeira de Pernambuco. Outra mãe que não se aguenta de emoção segura o estandarte e o filho. A garotinha de rabo de cavalo, óculos quadrados e o cruzeiro do sul salpicado na bochecha também brinca no Eu Acho é Pouquinho, flagrada pelas lentes de Juliana Lombardi. Uma geração inteira de índios bebês aparece, no Galo, na Rua do Bonfim, na Bom Jesus.

Em casa, antes dos cortejos, um casal de irmãos se prepara para sair de cangaceiros. Marido e mulher vão de marinheiros num grupo que tem malandro, bruxa, melindrosa e pirata. Outra índia de colo aguarda ansiosamente a primeira vez em que será ninada ao som do frevo.

Num camarote, a moça exibe-se contente ao lado do pai, os dois de camisetas verdes, como todos no espaço vip. Lá embaixo, entre o sol e a chuva, amigas nem ligam pro humor de São Pedro, e se abraçam com empolgação. Uma de máscara azul brilhante sobre os olhos, a outra de peruca rosa.

Vielas da região portuária e ladeiras de casarios antigos guardam a história de olhares trocados. Um grupo de enfermeiras topa com três vampiros, dois dráculas perseguem uma nega maluca. A bailarina rodopia, rodopia, se diverte sem parar. Uma fila de anjos quebra o colorido reinante, com asas e saias brancas, e se amostram para a TV.

Quem está trabalhando não demonstra insatisfação. Nos camarotes, nas ruas, nos bares e restaurantes, também vale a empolgação. Na cobertura da felicidade desmascarada, jornalistas, produtores, fotógrafos e câmeras vestem a camisa do ofício, sem lamento.

Casais incontáveis aproveitam para celebrar o amor de outros carnavais. Esse faz dos chapéus coloridos o mote da graça. Aquele, de verde e prateado, capricha na pose: disputam prêmio de melhor fantasia. Na Terra do Nunca, escoltada por Peter Pan, Sininho faz de conta que não vê o cordão de gente misteriosamente formado ao seu redor.

Personagens desgarrados não têm nada de solitários no seio da multidão. A tiara de flores emoldura a cigana pronta pra festa. Uma bruxinha de vermelho e preto descansa, de copo na mão. Sentado ao meio-fio, um pequeno bobo-da-corte se restabelece. Capitão Gancho toma um gole enquanto analisa o panorama. A menina assanhada pinta o rosto inteiro, em forma de labareda: é a chama que não passa. E até debaixo do boneco gigante, a disposição gigantesca segura a responsabilidade com leveza, interrompendo a performance pra foto de Hans von Manteuffel como se tudo fosse motivo de brincadeira. Por falar neles, a fila dos bonecões em Olinda é puxada por um Gonzagão à vontade, dentes à mostra, como se cantasse.

Expressão dos músculos faciais, o sorriso torna visível uma disposição de alma: disposição de proximidade, encanto, partilha, prazer e paz. A mais evidente e festejada nudez do Carnaval.

22.1.12

Metafísica das rochas



Monges budistas diante da pedra sagrada, em Mianmar.


A foto de Steve McCurry está numa exposição em São Paulo, e aparece em reportagem da revista Época desta semana. O corte superior não mostra a cúpula na parte de cima, cuja descoberta tira um pouco da beleza da cena, na minha opinião: a pedra deixa de parecer um capricho da natureza, ao ganhar um chapéu esquisito e inapropriado.

A Golden Rock é local de grande peregrinação de budistas e turistas. Segundo a lenda religiosa, é sustentada por um fio de cabelo de Buda. No site do fotógrafo, integra o álbum "Faith", que abre com a lógica indefectível de São Tomás de Aquino: "Para aquele que tem fé, nenhuma explicação é necessária. Para aquele sem fé, nenhuma explicação é possível".

O equilíbrio aparentemente instável da grande pedra dourada é um deleite para os olhos e a imaginação. À luz do pôr do sol, o brilho cintilante monta o cenário para os usos e abusos da fé (o mercado da peregrinação já toma conta do lugar, com hotéis e bares ao redor da visão inusitada).

A adoração de pedras não é incomum no Oriente. E era comum entre os povos antigos. A cultura indígena nas Américas também está repleta de pedras sacras, assim como as tribos africanas.

Na metafísica das rochas, a finitude humana encontra na matéria natural uma ponte para a eternidade. Ou a carga de culpa e sofrimento levada vida afora. Ou ainda, a inspiração para o foco necessário à meditação e à revelação. Pode ser também fonte de conduta ética, na imobilidade da crença, do valor e do costume que estão em seu lugar, e de lá não saem nem com a gota.

19.1.12

O repertório de cada voz


O canto vocaliza o que o corpo se acostuma a calar


Assim como de cada mão sai um traço, de cada olhar um chamado, de cada passo um caminho, em cada pessoa há um som. A vida dos personagens de histórias reais se comprime no tom que acumula os anos. Na expressão do rosto fatigado ou sereno que lembra muito mais do que a letra de uma canção.

Ele entoa segurança, ela, decepção. Outro não esconde a vergonha, aquela não disfarça a paixão empacada no passado. Orgulho estampado numa face, e o arrependimento, feito fino véu, recobrindo tantas. Momentos recuperados duelam com tempos perdidos.

A narrativa musicada parece ganhar peso, enquanto alivia a carga de quem canta na expiação sem pecado, na confissão repetida como um refrão. A culpa é tragada por um sorriso, na dor que se cumpre sempre que escuta a ilusão redimida.

A palavra cantada vocaliza o que o corpo se acostuma a calar, ou não exprime na forma que a música permite. Na dimensão que a música admite. Na afinação com o sentimento que a voz subitamente atinge.

Na respiração alterada em novo sentido a emoção encontra a memória que a explica. Da matemática nas notas da escala emerge a razão acolhida encolhida pelo silêncio do hábito.

Solta a garganta que chora antes da primeira lágrima cair. Solta o verso conhecido que em todas as vozes é verso diferente. Solta o instante que ressoa e abarca por inteiro o presente.

Canta do jeito que sabe, o fôlego da poesia, no repertório do sopro de cada voz.


As canções (Brasil, 2011)
Documentário de Eduardo Coutinho.



5.1.12

O fim de uma "guerra estúpida"


Soldados americanos no Iraque: a linha da insensatez


Levou mais tempo do que o candidato Barack Obama esperaria do presidente Obama: mais de oito anos depois de iniciada, e decorridos três quartos do primeiro mandato do democrata, a ocupação militar do Iraque pelos Estados Unidos chega ao final. Alvo de crítica ácida na campanha presidencial norte-americana de 2008, e de praticamente todas as nações do mundo desde o princípio, em 2003, sob o apoio do ex-presidente George Bush, filho, do primeiro-ministro britânico Tony Blair, e a desaprovação da maioria da plateia global, a presença de tropas estrangeiras em território iraquiano deixou um saldo de quase 120 mil mortos, dos quais apenas 4,5 mil americanos. Cerca de 1,5 milhão de refugiados foram criados. Sua maior serventia parece mesmo ter sido econômica: a de manter os contratos milionários da indústria bélica dos EUA, que totalizaram, na menor das estimativas, a bagatela de US$ 800 bilhões em gastos, ou próximo da média obscena de US$ 100 bi por ano. Há quem faça a conta de que a guerra não saiu por menos de US$ 1 trilhão.

Muito longe de atingir os objetivos de pacificação e estabilização prometidos por Bush, a retirada das tropas é quase a capitulação melancólica de uma potência bélica que, de outro modo, poderia se considerar desocupada. O ataque verbal ao uso da força como estratégia de política diversionista foi veemente em 2008 pelo então candidato à presidência Obama, que chegou a chamar a situação no Iraque de “guerra estúpida”. Infelizmente, uma vez no poder, Obama não teve força política para impedir que a estupidez continuasse ao longo dos últimos três anos, ceifando vidas e semeando o ódio de maneira insana e desnecessária.

Bush aproveitou-se do clima tenso causado pela derrubada das Torres Gêmeas do World Trade Center, em 2001, para invadir o Iraque sob o pretexto de que Saddam Hussein abrigava a Al Qaeda e escondia armas químicas de destruição em massa. Nenhuma arma desse tipo foi encontrada. A deposição de Saddam não levou calmaria ao país. Pelo contrário, incitou a desavença entre grupos que se sentiram mais próximos do controle, devido à ausência do ditador. A partir daí, o discurso oficial ianque abraçou o mantra da pacificação interna, que até hoje não foi alcançada. Em 2007, no auge desse discurso, um ano antes da campanha presidencial que elegeria um Obama opositor da ocupação, os EUA tinham 170 mil soldados espalhados em mais de cinquenta bases no Iraque. O cheiro de sangue foi intenso, mas a ordem propalada perdeu para o caos que os invasores ajudaram a instalar.

Como chefe de Estado, Obama divulgou mensagem em agradecimento ao sacrifício de milhões de homens e mulheres durante tanto tempo. Pela contundência do ex-senador na época em que a Casa Branca ainda era um sonho, é plausível imaginar a decepção do presidente americano com a demora em conseguir cumprir a própria promessa. Quando assumiu, havia 150 mil soldados no Iraque, e o número veio decaindo até a última leva, de 40 mil. A retirada teria que se feita em termos responsáveis, justificou Obama. Que seja uma vitória definitiva do bom senso sobre a estupidez.

Editorial do Jornal do Commercio, 5/1/2012.

Foto: Anja Niedringhaus/AP

4.1.12

A pauta dos vereadores


O direito à informação pelos cidadãos é tão constitucional
quanto o aumento de salário dos parlamentares


Era tão certa a polêmica, que a direção da Câmara escolheu votar e aprovar o aumento salarial de 62% para os parlamentares da próxima legislatura, a partir de 2013, nos estertores de dezembro, a um passo do recesso, na esperança de ficar a muitos passos da reprovação pública. Mas em tempos de redes sociais, o tiro de esperteza pode ter saído pela culatra. Ainda que o cálculo do desgaste tenha levado em conta o calendário de festas e de férias para minimizar a chiadeira, a reação nos meios de comunicação – incluindo a internet – elevou o tom da indignação acumulada, apenas alguns dias depois do escandaloso auxílio-moradia retroativo dos deputados estaduais vir à tona.

Nos dois casos, sobressai o distanciamento da transparência e da firmeza na defesa de posições, quando se trata de interesses particulares embutidos no interesse de grupo. Os poucos que se manifestam apelam para a legalidade do recebimento dos recursos, parecendo fazer-se de surdos perante o grito dos que reclamam. A controvérsia do legal acima do moral é antiga, e não conduz a lugar algum, além do beco sem saída da decepção e do desencanto que joga os políticos num mesmo saco de baixa valia. Nesta perspectiva, o espírito corporativo na política é tão daninho quanto em outras atividades, com o agravante de bater de frente com o interesse coletivo, o qual suas excelências são pagas para servir em primeiro lugar.

Se o aumento de salário de cerca de R$ 9 mil para R$ 15 mil é legítima e democrática, como qualificou o vereador e ex-presidente da Câmara, Múcio Magalhães, por que proceder à sombra, sem trazer os números e a justificativa de maneira franca e honesta para o conhecimento e manifestação da população? Democracia à sombra lembra autoritarismo, configura prática obscurantista que em nada honra a tradição da política pernambucana.

Enquanto a Lei Orgânica do Município assegura aos vereadores o direito de fazer jus à remuneração de até 75% do que ganham os deputados estaduais, o cidadão comum tem o direito de opinar sobre a questão, inclusive opondo argumentos ao reajuste salarial máximo, no limite do teto. Aliás, o direito à informação é tão constitucional quanto o aumento máximo de salário possível dos parlamentares, e um não deveria prevalecer ao outro. É por isso que a indignação crescente tem gerado ampla repercussão, até com abaixo-assinado virtual em favor da anulação da medida. Em dois dias de circulação nas redes sociais, o documento ultrapassou a marca de cinco mil nomes, e deve ser encaminhado nos próximos dias para o Ministério Público.

Apesar da repercussão negativa e do equívoco indefensável da manobra dos vereadores, é preciso separar a função do Parlamento de eventuais descaminhos trilhados por seus momentâneos integrantes, como ressalvou o cientista político Michel Zaidan, na última quarta-feira, em entrevista a Aldo Vilela na rádio CBN. Quem sabe, no retorno ao trabalho, a pauta da cidade volte à pauta da Câmara, para que o salário de detentores do voto não abra o ano eleitoral como motivo de generalizada descrença.

Editorial do Jornal do Commercio, 04/01/2012.

Foto: Roberto Pereira/D.A Press

1.1.12

Entre dois tempos


Fim da contagem regressiva em Londres


No último dia do ano, a celebração reúne o passado e o futuro. O possível se torna visível, o horizonte se torna maior em sua aproximação máxima, delineando os contornos do desejo sem traços de dúvida. Caminhos cruzados e eventuais percalços vão para a sombra da memória, enquanto a imaginação providencia a queima de fogos para iluminar os próximos passos, de percurso nítido e evidente.

No primeiro dia do ano, a ressaca separa o futuro e o passado. Toda possibilidade volta à invisibilidade, retomando a condição de potência não realizada. O horizonte se afasta outra vez, levando o que parecia definido, devolvendo a suspeita sobre o que se esconde invariavelmente a seguir.

A sensação do futuro trespassado – consumado ou esfumaçado pelo presente – é contraditória: ao invés da novidade, o que se foi é o que se apresenta, reativado pela travessia da fronteira entre dois tempos.

Antes da contagem regressiva, olhares brilham a espreita de qualquer surpresa. É quando o sonho encontra os olhos abertos e aproveita. Com a primazia da visão na fronteira temporal, a vitória, a beleza ou a redenção sonhadas aparecem com avidez. A certeza de que tudo está para mudar embala a espera, em ritmo de vigília por um nascimento.

Depois dos abraços e das lágrimas, dos gritos e das explosões que iluminam a meia-noite, a surpresa se dissipa como a pólvora ao vento. A certeza de que tudo estava para mudar, de repente silencia. E as ilusões desenhadas no entre-tempo do Ano Novo regressam ao ventre do céu noturno. O futuro foi lançado mais a frente, está mais distante, agora que um ano ficou para trás.


Foto: Reuters.

27.12.11

Auxílio escandaloso




Monumento na Praça dos Três Poderes, em Brasília


O ano político pernambucano terminou com uma bomba de origem retroativa e potencial efeito sobre as eleições municipais. Parece uma aberração, tamanha a dimensão do absurdo: deputados e ex-deputados estaduais estão recebendo parcelas de dinheiro referentes a um “auxílio-moradia” a que supostamente fariam jus, no mandato compreendido entre os anos de 1995 e 1998, mesmo morando na capital. A lista de beneficiados é extensa e conta com expoentes dos principais partidos, inclusive dois pré-candidatos bem colocados nas pesquisas de intenção de voto para a disputa majoritária no ano que vem, como divulgou o blog Acerto de Contas, primeiro a levantar o tapete da triste história.
A vantagem financeira extra já vem sendo paga há três meses, o que significa que nenhum deles pode alegar que não sabia do que se tratava. Se alguém alegar, vai soar no mínimo estranho. Serão 36 parcelas que podem somar R$ 354 mil para cada um, ou até mais. A naturalidade esboçada em algumas reações é sintomática de pelo menos duas graves distorções, que afastam o senso comum do exercício do poder e atiram no lixo o conceito dos políticos.
A primeira seria o descaso com a opinião pública, como se não fizesse qualquer diferença mais uma notícia “caluniosa” nos jornais. A segunda seria o indício do mau hábito nacional, de lidar com o dinheiro do contribuinte ao bel prazer, desprezando as imensas necessidades coletivas que se acumulam em detrimento da cobiça pessoal ou em favor de projetos partidários. “É uma esculhambação. Um deboche que depõe contra a imagem do Legislativo”, definiu em entrevista ao JC o deputado Paulo Rubem, que não aceitou o acréscimo.
A Assembleia Legislativa divulgou nota oficial para justificar a distribuição de benesses respaldada na lei de isonomia salarial entre os Poderes. No entanto, o véu da legalidade não esconde o abuso e a indignidade de um fato merecedor da repulsa da sociedade. Da parte da instituição parlamentar estadual, é lamentável que a Casa de notável tradição e tantos serviços prestados a Pernambuco considere o repasse de recursos desta natureza com isenção de questionamento.
Depois do famigerado “auxílio-paletó” e das suspeitas subvenções a entidades filantrópicas de fachada, a Assembleia deveria ter entendido que a população não tolera a falta de transparência e o abuso na gestão dos recursos. Por outro lado, da parte dos nomes envolvidos, além de lamentável, o recebimento do dinheiro extra a título de auxílio-moradia configura uma atitude imoral – e para o cidadão comum, decepcionante. A OAB encaminhou à Assembleia pedido de informação sobre o caso, e promete acompanhar de perto seus desdobramentos.
Como ressaltou a colunista do JC, Sheila Borges, “o que se espera de homens públicos são bons exemplos”. O auxílio-moradia retroativo, na linguagem popular mais uma “mamata”, dificilmente é inspirador de boas práticas. Trata-se de uma chacota com a honestidade que teima em vigorar no País, onde a ética do dinheiro fácil vai se tornando a cada dia menos surpreendente. O estarrecedor se dilui no que há de deprimente no episódio, atirando às costas dos eleitores a responsabilidade pelo futuro.
O pior é que o auxílio escandaloso nivela por baixo a elite detentora de altos cargos no serviço público nacional. Nos últimos anos, integrantes dos três poderes têm se esforçado para se superar nos privilégios que se concedem, em mútua anuência, aprofundando, sem qualquer desfaçatez, o poço da desigualdade que cerca a sexta economia do mundo.


Foto: Oliver Ross/www.chocolate-fish.net


23.11.11

Natalie e a imagem da beleza




Toda beleza é momentânea, desafia o instante,
insinuando a duração utópica que desponta no belo



Dias atrás, a notícia de reabertura das investigações sobre sua morte ganhou destaque na internet, na TV e nos jornais do mundo inteiro. Assim, trinta anos depois de deixar-nos, sua lembrança meiga mais uma vez nos arrebatou. O retorno à mídia provocou uma avalanche de acessos e exibições de poses regatadas. O brilho de Natalie Wood estava de volta. Uma multidão de olhares foi atraída pela imagem desaparecida há tanto tempo, como se algo de eterno pudesse, através dela, ser vislumbrado.

Pena que a imagem recuperada não recupera a beleza perdida, assim como a atriz que salta do baú midiático não pode ser devolvida ao convívio de fãs, dos amigos e da família. Reforçando a afirmação proustiana de que a beleza das criaturas humanas é diferente da beleza das coisas, o retorno de Natalie Wood às telas e às manchetes também serviu para ressaltar que a imagem da beleza é a beleza imaginada. Foi por via da imaginação ideal da forma feminina, ainda encontrada nela, que bastou se atiçar a memória do público – e a curiosidade dos que não a tinham visto antes – para que emergisse facilmente a admiração recordada de sua graça. Um encanto antigo, reaceso, um deslumbramento coletivo, mediado e multiplicado, repartido feito pão aos famintos do belo.

Decerto o motivo do reencontro desperta a nostalgia em torno da estrela de Holywood. E quem sabe a nostalgia de uma época mais simples, em que a aparência ideal não sumisse num emaranhado de máscaras – e faces tão preparadas que parecem mascaradas, ansiosas, à espreita de luz e atenção. Mesmo que ambas, quando cheguem, raramente primem pela permanência.

Apesar da ilusão, o fato é que nem as deusas do cinema recebem o dom da beleza eterna. Toda beleza é momentânea, desafia o instante, insinuando a duração utópica que desponta no belo. Tentar reprisá-la é tentar reeditar o instante que ficou para trás. Por sua vez, a mimetização imagética recorre à união da memória com a imaginação, à melhor maneira platônica. Novamente Marcel Proust: a beleza não é senão uma série de hipóteses.

Acreditamos hoje que Natalie Wood era linda, e dificilmente pensaremos o contrário ao mirar suas fotos e seus filmes. Mas a beleza da imagem está menos no que revela, e mais no que sugere. A beleza que está além da imagem – e se inscreve no campo de visão de uma verdade que se oferece – compartilha o alcance dos olhos com o desfrute do tempo vivido. O que é algo, por enquanto, impossível de reproduzir.

10.11.11

O pulso e o olhar




Toda contagem do tempo é contagem regressiva






É como algo “desperdiçado, dissipado suavemente”, que ela goza do muito tempo que tem. O desperdício suave que se dissipa – imagem de Hermann Hesse em “O lobo da estepe” – revela a culpa de quem gasta o que não se acha no direito de possuir. Para expiar o pecado sem perdão, deixa o tempo exagerado em sua carne escorrer sem pena entre as mãos. E mesmo assim não se desata da impressão de que o futuro é um local distante, para onde, por mais que corra, irá demorar a chegar.

Olha para o pulso – do tempo contado, acumulado e perdido... toda contagem do tempo é contagem regressiva – e imagina o próximo perigo: a duração prolonga a ansiedade e o tédio, e os renova sempre que ela fita os números girando no braço, na corrente eterna sob a pele. A liberdade, se existe, é fora do tempo, pensa, enquanto antevê o minuto seguinte, a semana que vem, o ano adiante.

Todo indivíduo é um relógio diferente... então como o tempo poderia nos fazer iguais? Ela queria viver num mundo em que se partilhasse o tempo comum, e fosse dispensado o conceito utópico da eternidade. O que é eterno, além da prisão do tempo? Sair dessa prisão seria sair da ideia, subitamente inútil, do infinito temporal. Sem a medida, que restaria do que se mede?

Ela aposta que o que sobra é a poesia sem escala, inconsumida, como o vazio incompreendido entre as estrelas, o vácuo entre astros que se atraem. Quanto tempo dura um olhar? Como se conta o instante relembrado inúmeras vezes, retocado pela memória e incorporado à imaginação – que não se rende à contagem comum, ao cerceamento ilusório do grilhão inexistente?

É preciso vencer a ilusão. Ela decide estancar o tempo, deter o império da cronocracia. Tomar o poder do tempo, assaltar os seus bancos, desafiar os mesquinhos guarda-costas, arrombar os cofres cheios de tempo sem uso... e distribuir tudo para os sem-tempo, os pobres-coitados que esmolam por horas velozes e dias curtos, que logo se vão.



O preço do amanhã (In time, EUA, 2011)
Direção: Andrew Niccol.
Com Olivia Wilde, Amanda Seyfried e Justin Timberlake.

5.11.11

Fertilidade do caos



O caos não suspende a ação por causa de uma entre outras ordens possíveis



A paixão ganha razões elementares no contraste com a privação dos prazeres, a dor prolongada e a perspectiva de morte prematura que fazem da guerra o cenário perfeito para a celebração da vida.

E a razão ganha argumentos apaixonantes diante do quadro desolador, do desespero reinante e das ruínas que nascem por todos os lugares em que a esperança se defronta com a destruição e a perda.

É do realismo chocante que brotam as raízes do delírio. É da brutalidade que se oferece com insistência à vista que a ternura se impõe necessária. É da penitência generalizada pelo terror que o perdão aparece sem esforço.

A culpa se espalha na poeira da devastação. Escombros e cicatrizes, todavia, não ficam totalmente para trás. O caminho também se faz do tropeço em escombros, e há feridas reabertas no menor passo adiante.

Pode demorar até que a redenção traga a reboque a coincidência entre o romance e a paz, unindo a liberdade de fora com a de dentro, selando o encontro do luto com um novo caminho, que surge surpreendente, confortante, sem explicação.

Sim, o caos cria mundos, novos sentidos, e até recupera antigos – mas o perigo da fertilidade caótica é que ela pode continuar indefinidamente. O caos não suspende a ação por causa de uma entre outras ordens possíveis.

O caos não para de semear e matar, como guerra sem origem sabida, nem desfecho previsível.



Esses amores (Ces amours-là, França, 2010)
Direção: Claude Lelouch
Com Audrey Dana e Dominique Pinon.

6.9.11

A eternidade suspensa




O tempo passa tão devagar que é como se não houvesse tempo, ou como se a sua percepção fosse tão limpa, como se fosse o tempo sólido, visível, envolvendo as coisas diante dos olhos, cada instante preso no olhar de um tempo em pura distensão.

Mas do fundo da visão cristalina não sai a vertigem do fim de tudo, que se sabe e se esconde desde o começo. Feita permanente, a vertigem não assusta como antes. A presença do que não traz sentido provoca a sensação de vazio preenchido, e a vertigem passa a ser não mais o que se teme enxergar, e sim, um modo cego de observar o mundo.

A velocidade transitória é retirada. A paralisia mobiliza os músculos, como se o corpo tomasse consciência da mente. A estupidez transitória é retirada, sobrando o estupor da razão ausente.

E o que se eternizava, sob a confiança monótona dos dias ligeiros e das horas intermináveis, dos segundos inapreensíveis e dos anos mal recordados, o que se eternizava em hábitos, credos e ritos dirigidos à eternidade, se despedaça.


Melancolia (2011)
Direção: Lars von Trier
Com Kirsten Dunst e Kiefer Sutherland.

20.5.11

De porta em porta



O idealismo romântico despreza a natureza do ser


É uma noção recorrente a de que um plano superior estabelece as coordenadas que seguimos em nossas vidas, quer entremos por uma porta ou por outra, como se houvesse sempre uma explicação convincente para erros e acertos pelo caminho. E assim confundimos vontade e necessidade, acaso e determinação, o começo de uma jornada com seu imprevisível final.

Destino é aquilo que se conta retroativamente, mas pode ser confortante pensar que tudo está definido, escrito em algum caderno psicodélico, quiçá rabiscado pelas estrelas na hora do nascimento, previsto por algum oráculo morto muitos anos atrás.

Da mesma forma, imaginar sujeitos magníficos escolhidos para um dado curso especial na história do mundo, capazes de guiar a maioria desorientada, é um mecanismo propulsor de enganos, perpetuados rigorosamente pelas doutrinas da salvação. O líder é ungido tanto por um poder invisível, que representa, quanto pelo desejo das massas, que nele crê. O messianismo, por outro lado, se exercita na esperança de que tudo mudará... esperança esfumaçada tão logo a profecia se realize e precise, com urgência, ser substituída.

No carrossel das cartas marcadas, a tradição romântica acompanha o novelo de relações impossíveis que se descobrem, por isso mesmo, inevitáveis, girando da improbabilidade para o grau de possibilidade máximo. Um casal verdadeiro é aquele predestinado, de preferência rodeado de circunstâncias que reforcem o impacto da ordem longínqua no aparente caos das ligações humanas.

O amor, neste cenário montado para uma performance esperada, surge não como surpresa, não como espanto, não como encanto que subverte a montagem estabelecida. O que se reconhece no outro – a imagem de si – reflete um brilho de eternidade que só pode ser visto no espelho das histórias controladas desde a origem, imunes à ação deletéria do tempo e amparadas em firmes convicções.

A felicidade ideal dos contos em que o romantismo domina, vinga e vence, esconde delimitações arbitrárias que desprezam a natureza do ser, lançado ao risco e às variações da existência desde o nascimento, impelido assustadoramente ao idêntico desfecho de toda matéria no universo: decaindo e se decompondo para se recompor adiante, à mercê de um relojoeiro cego (na imagem criada por Richard Dawkins para a evolução).

O determinismo que se espalha em tantas direções faz de conta que existe sempre a porta certa, a pessoa certa, a carreira certa, a hora certa. Mesmo que haja, só se sabe olhando para trás. Enquanto o tempo consome e é consumido em nossa pequena cadeia de acontecimentos, o fato é que as portas não cessarão de se mostrar, uma atrás da outra, chamando para o destino que nunca está lá.


Os agentes do destino (The adjustment bureau, EUA, 2011)
Direção: George Nolfi
Com Matt Damon e Emily Blunt.
Baseado em conto de Philip K. Dick.

5.3.11

Espelho d'água





Mesmo de olhos fechados o que é visto é o intocado.

O corpo enxerga tão perto que pode não enxergar nada.

A imagem do tato e a da retina se cruzam, num mergulho em água cristalina.

Porque são mundos distintos, o corpo e a visão.



O que a gente vê no espelho espanta.

Quanto mais luz pior. O espelho parece mentir menos na penumbra.

O corpo faz outra imagem de si, enquanto a vista compõe a face do mundo.

De uma janela do corpo, o que não é corpo se forma.



A visão de dentro se afasta no exterior sumidouro.

Mantemos o rosto fora da água.

No limiar que separa da consciência o real.

O corpo está imerso no sonho, ou o sonho diante do olhar?




Foto de Toni Frissell, no álbum de Juliana Lombardi.

21.2.11

O desfrute da droga amorosa




Modo de estar ou de ser, a paixão parece mesmo uma substância aplicada no corpo, pronta para alterar o juízo... Muda a percepção de tudo. Como saber o que a razão recusa na inundação de um cérebro apaixonado? Como fugir da corrente que define o sentido de cada vão racional por onde passa? O que fazer para levar o pensamento a uma clareira onde se possa vê-lo por inteiro, onde o pensar não seja inútil?

A paixão dita o seu curso até o último suspiro. Até a última gota da inundação química que paralisa o organismo em único propósito. Sem pausa para a lucidez, sem hiatos que sirvam de ilhas para os desesperos da reflexão.

Se o medo insinua um atalho de volta, a sombra generosa da paixão ainda convida. O atalho teria sabor de renúncia. Que fique a razão à deriva, na rota de certa, ainda que breve, ventania.

Abandonar a torrente de sensações, pra que? O horizonte é distante. O futuro continua o presente. O passado, ou é presente derramado, ou não é nada. A paixão é a grande explosão de significado, o nascimento que conta. A ordem cronológica se desfaz diante da desordem que importa.

A derrocada da paixão enquanto cumpre o seu destino é imersão em sofrimento. A estupidez funciona como campo de energia de proteção contra a intrusão da dor. A paixão é uma estupidez necessária para a fruição da paixão. E o destino se cumpra, até o fim do prazer, durante a eternidade do encontro inaugurado com a mesma intensidade a todo apaixonante instante.

O tempo da paixão não se esgota no temor de hipóteses de agonia, mas só começa a estancar no flagrante de entediante reprise. Quando a eternidade, ao invés de perpetuação de benévola dependência, começa a figurar como repeteco sem gosto. A paixão acaba quando dá certo, e o efeito do vício se esgota. Se der mais certo, é porque o amor aprende a se desvincular da própria droga.

Como modo de estar, quase toda paixão tem hora marcada e prazo de validade. Como modo de ser, é distração cambiante, no desfrute intermitente do tsunami passional.


O amor e outras drogas (Love and other drugs, EUA, 2010)
Direção: Edward Zwick
Com Anne Hathaway e Jake Gyllenhaal.

22.1.11

Realidade seduzida



Entre os motivos fáceis para gargalhar, um motivo fácil para sorrir.


O papel é secundário, mas a presença rouba a cena quando a beleza aparece, despretensiosamente. Como se não fosse importante. Como se não mudasse o eixo das atenções, e não perturbasse o curso da narrativa. Como um silêncio que abre nova conversa, apresentando a justificativa para falar de outra coisa. Mesmo que não troque o assunto, ela impõe nova perspectiva, enquanto o pensamento vai cedendo espaço cada vez maior à contemplação: diante do belo, a expressão do posto aos olhos perde status para a expressão do susto...

Uma participação pequena na trama não retira a impressão de permanência da personagem marcante. O inverso acontece com frequência. Para dar peso às aparições de poucas linhas, convidam-se nomes famosos para conferir charme aos instantes cruciais da história. Coadjuvantes de luxo dispensam explicações porque atraem a curiosidade do público. Ao alterar momentaneamente o foco, e descentrar o mundo dos protagonistas, indicam rumos alternativos, caminhos paralelos, e até raízes diferentes daquelas que supostamente conduzem o relato até ali.

A realidade é transfigurada pela beleza a qualquer hora – ou pelo menos pode sê-lo, rendida à súbita ou repetida sedução. A realidade não resiste muito tempo, de toda forma, agarrando-se à beleza a fim de não naufragar em si mesma. Ou agarrando-se à possibilidade criada antes que ela desapareça.


Entrando numa fria com as crianças (Little Fockers, EUA, 2010)
Direção: Paul Weitz.
Com Robert De Niro, Ben Stiller, Owen Wilson, Dustin Hoffman, Barbra Streisand e Jessica Alba.


13.10.10

Bom é aproveitar




Uma viagem que não se completa pode ser extenuante até o momento em que se percebe e se sente o gosto puro de viajar. Mesmo sem sair do lugar, já que não é sempre o corpo externo que necessita do movimento, da variação.

Por isso o ensinamento inclui o sorriso do fígado: da alma do corpo que se retrai. A meditação não vale apenas para a mente aquietar-se. Vale para o corpo inteiro sair do declive e achar a justa velocidade no percurso que não tem volta.

O equilíbrio humano é sutil e enganoso. Há quem se equilibre no alto do abismo, há quem prefira a segurança de ondas na beira do mar. O engano está em supor o equilíbrio seguro, ou tomar uma zona de conforto pelo equilíbrio final.

Escapar do conforto é uma busca clássica, no entanto, que também não garante a jornada tranquila... Estar em constante fuga, e em eterna manutenção, é próprio do homem - da insatisfação do ser que não se cansa de estar atrás de si mesmo, de experimentar os prazeres, as dores, os traumas e alegrias de uma travessia que é feita, de uma forma ou de outra.

Através do tempo, e de cada um, caminhos se formam e se cruzam, aqui ou em outro lugar. E à semelhança do desbravamento de mundos e do deslumbre de novas paisagens, o primeiro passo é pedido a quem quiser aventurar-se no vasto repertório de imagens, direções, paladares e transcendentes ligações possíveis durante toda a viagem - que todos querem, mas nem todos sabemos ou podemos aproveitar.


Comer rezar amar (Eat pray love, EUA, 2010)

Direção: Ryan Murphy
Com Julia Roberts e Javier Bardem.