No escuro do palco, onde há menos escolhas, a palavra canta em liberdade. Como se lhe faltasse horizonte – mas também como se não lhe envolvessem, jamais houvessem lhe envolvido, um único muro, alternativas bifurcando-se, limites de qualquer natureza.
A liberdade da palavra é aquela que escapa inclusive ao instinto. O instinto é obediente. A palavra que sobe o palco desobedece. Comete o desatino premeditado. Presa do corpo e livre dele, a palavra traz belo paradoxo: para cumprir um roteiro, descumpre outro. Adensa a vida pairando acima da mera sobrevivência.
A palavra no palco é nua sem saber que a nudez existe. Por isso mente com sinceridade, mente e convence – quando lhe emprestam ouvidos, olhos, nariz e boca, o resultado não pode ser outra coisa senão a verdade.
A mudança se faz com a palavra. Da guerra à paz, a palavra atravessa um campo de batalha. Prisioneira, a palavra cala quando soa em vão. Sufocada, a resistência espera a hora da palavra. Mutilada, chora o que o grito de dor não recupera.
Na ira incontida dos que se anulam, na carga invisível das cicatrizes, a palavra exprime lamento e lembra o resquício do sonho roubado. O desespero vê de soslaio um consolo, com a lágrima que rola na face endurecida pela amargura.
O testemunho do horror consome de uma vez futuro e passado, deixando no lugar do indivíduo presente um estranho desfigurado a cada gota que passa. A palavra não cura, não traz de volta – mas busca no sonho a costura do ser desencantado.
A justiça que importa vem edificada pela palavra. Para dizer da igualdade no sofrimento, na impotência, na vergonha. Para ecoar essa igualdade se a palavra é uma ordem – ou quando é mais imperativa, explode em forma de arte.
Salvo-conduto em branco, a palavra no palco conduz e corrige a trama, de ato em ato.
Tempos de paz (Brasil, 2009)
Direção: Daniel Filho.
Com Tony Ramos e Dan Stulbach.
Um comentário:
Que blog delicioso! Adorei Fabio!!
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