6.12.09

Onda azul sobre Copenhague




Manifestantes tomaram as ruas de Londres ontem para pressionar os participantes do encontro que começa amanhã em Copenhague, na Dinamarca, onde serão discutidas as metas nacionais de redução na emissão dos gases responsáveis pelo efeito estufa. Esses gases estariam elevando a temperatura do planeta e pondo em ação a contagem regressiva para a mudança do clima.



Há quem diga que a dano está feito, com as consequências a caminho – entre elas o derretimento ainda maior dos pólos, a elevação do nível dos oceanos, a inundação de regiões costeiras, e o aumento da temperatura.


E há quem diga que nada disso é culpa da mão pesada da humanidade e suas fábricas de fumaça.

No fim das contas, o resultado da Conferência de Copenhague dependerá de que lado terá melhor desempenho na guerra da informação: se a “onda azul” dos bioativistas, ou a “onda cinza” dos poluidores indiferentes.

Fotos: Leon Neal/AFP/Getty Images e Luke Macgregor/Reuters.

1.12.09

Kafka e o pião filosófico




A capacidade de conhecer não casa com a capacidade de contemplar.

O conhecimento e a contemplação, não sendo opostos, teriam contudo natureza diversa, levemente repulsivos um em relação ao outro – coexistindo sem “se encostar”, sem habitar o mesmo momento, animar ao mesmo tempo o mesmo impulso curioso.

Eis uma leitura possível do pequeno conto de Kafka, a seguir.


O pião

"Um filósofo costumava circular onde brincavam crianças. E, se via um menino que tinha um pião, já ficava à espreita. Mal o pião começava a rodar, o filósofo o perseguia com a intenção de agarrá-lo. Não o preocupava que as crianças fizessem o maior barulho e tentassem impedi-lo de entrar na brincadeira; se ele pegava o pião enquanto este ainda girava, ficava feliz, mas só por um instante, depois atirava-o ao chão e ia embora. Na verdade acreditava que o conhecimento de qualquer insignificância, por exemplo o de um pião que girava, era suficiente ao conhecimento do geral. Por isso não se ocupava dos grandes problemas – era algo que lhe parecia antieconômico. Se a menor de todas as ninharias fosse realmente conhecida, então tudo estava conhecido; sendo assim só se ocupava do pião rodando. E, sempre que se realizavam preparativos para fazer o pião girar, ele tinha esperança de que agora ia conseguir; e, se o pião girava, a esperança se transformava em certeza enquanto ele corria até perder o fôlego atrás do pião. Mas quando depois retinha na mão o estúpido pedaço de madeira, ele se sentia mal e a gritaria das crianças – que ele até então não havia escutado e agora de repente penetrava nos seus ouvidos – afugentava-o dali e ele cambaleava como um pião lançado com um golpe desajeitado da fieira."

(Em Narrativas do espólio, Franz Kafka, Cia. das Letras, 2002, Tradução de Modesto Carone)



Foto: Ratão Diniz / www.flickr.com

28.11.09

Lavando as mãos pelo Irã




A abstenção do Brasil na votação de ontem na Agência Internacional de Energia Atômica da ONU foi uma eloquente demarcação de território para a diplomacia brasileira – a assumir um papel relevante nas questões mundiais, preferimos ficar num lugar discreto, “não mexa comigo que não mexo contigo”, no limbo dos omissos, comodamente instalados no tabuleiro global como participantes “café com leite”.

Após a cordial visita do presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, ao amigo Lula, na semana passada, esperava-se ao menos uma tomada de decisão cristalina por parte do Itamaraty, contra ou a favor a moção de censura da ONU dirigida ao Irã. O Brasil não teve coragem de se opor a ninguém, reiterando a ambígua neutralidade que põe o País em cima do muro diante de decisões impostergáveis.

O fato recorda Pôncio Pilatos, que do alto de sua autoridade de juiz teria deixado a decisão sobre a crucificação de Cristo para a democrática vontade do povo, com o simbólico ato de lavar as mãos pela escolha da maioria. Mas é uma má analogia: o voto brasileiro na AIEA não sucumbiu à vontade coletiva de repudiar a política nuclear do Irã, cujos indícios são cada vez mais na direção da construção da Bomba.

Parece mais com a cena de O Aviador em que Howard Hughes, interpretado por Leonardo DiCaprio, sai de uma conversa com um empresário concorrente e vai ao banheiro do clube para lavar compulsivamente as mãos. Obcecado pela higiene, Hughes descarrega ali toda a raiva pelas “palavras sujas” proferidas pelo adversário – e por ele – durante o encontro, esfregando tanto o sabonete que as mãos chegam a sangrar.

A abstenção de ontem foi um corte nas mãos da diplomacia brasileira, que se esmera em parecer “limpa” a ponto de trocar o comprometimento e a responsabilidade pela automutilação.


Foto: Agradecendo antecipadamente ao Brasil,
Ahmadinejad na sede da ONU, em Nova Iorque,
em setembro. (Mike Segar/ Reuters)

23.11.09

Lula e Ahmadinejad em alto astral




Os presidentes do Brasil e do Irã, em clima de descontração, hoje, no Palácio do Itamaraty, em Brasília.

Uma foto para guardar na memória, ficar na história – e não se perder, nem de uma, nem da outra.

Foto: AFP.

22.11.09

No espelho da oficina espacial




O astronauta Robert Stacher aproveita um intervalo da sua primeira caminhada no espaço para tirar uma foto que já virou tradição, apontando a câmera para si mesmo. O capacete espelhado mostra um pedaço do vazio orbital em que Stacher e seu parceiro no passeio, Mike Foreman, dão uma de mecânicos na Estação Espacial Internacional (ISS).

A missão da Atlantis que está lá em cima está promovendo reparos na antena da ISS, e lubrificando os equipamentos robóticos.

Curioso é como, em pleno vácuo nas bordas da Terra, onde a vista pode se perder de vista, a sensação causada pelo reflexo no capacete do traje espacial seja uma sensação claustrofóbica – provavelmente causada pelo confinamento de tantos elementos incomuns no campo visual do mecânico celeste.

Foto: Nasa

20.11.09

Cinema verdade




Em entrevista exibida agora à tarde pela MTV, a atriz Kristen Stewart, do filme Lua Nova, disse que gostava de fazer as cenas apenas uma vez - porque se tivesse que repetir, seria como se estivesse mentindo.

16.11.09

Crítica ao otimismo ideológico




Vale dar uma olhada na entrevista da jornalista Barbara Ehrenreich na Istoé desta semana, sobre o que ela chama de “ditadura do pensamento positivo”. Barbara teve câncer e foi confrontada, além da doença, com a “ideologia organizada” da autoajuda que impõe o otimismo como princípio de cura para todos os males.


Alguns trechos da entrevista:

Falsa promessa – “Estamos acostumados a ouvir que, se pensarmos positivamente, as coisas boas virão. (...) As pessoas não podem continuar se autoenganando continuamente sem correr sérios riscos”.

Individualismo – “É só você que tem que mudar, o mundo não. Os livros de autoajuda nunca perguntam como seus desejos podem entrar em conflito com os do outro”.

Segregação – “Ninguém quer estar em torno de pessoas negativas, reclamonas, choronas ou vítimas. Elas se tornaram o equivalente moderno dos pecadores”.

Saída – “Por que não tentar olhar para o mundo, tanto quanto possível, como ele é? E ver quais as oportunidades e os perigos, e aí tentar descobrir o que fazer a respeito deles”.

No filme Sim, senhor, com Jim Carrey e Zooey Deschanel (foto), a história narra a mudança na vida de um personagem que diz “não” a tudo e passa a dizer “sim” depois de ir a uma palestra de autoajuda. Aborda de maneira leve os dois tipos de radicalismo, mostrando com bom humor os equívocos do excesso em qualquer dos casos.

13.11.09

Invenção da verdade




"A verdade literária é aquela que é inventada para ser verdadeira".

Milton Hatoum, autor de A cidade ilhada, no Espaço Aberto Literatura da Globonews.

Foto: Istoé.

Encontrado gelo na Lua




Ali onde a seta aponta pode ter 90 litros de gelo, logo abaixo da superfície lunar.

Para o cientista-chefe da Nasa, Michael Wargo, "a Lua esconde muitos segredos", e um deles acaba de ser revelado, em uma região que não recebe incidência de luz do sol há bilhões de anos.

12.11.09

Sombras do apagão




O blecaute de ontem à noite expôs a fragilidade do sistema de distribuição de energia no Brasil: um país com o tamanho do nosso, à mercê de uma ventania ou de uma tempestade, a se fiar nas palavras do governo sobre a causa da falta de luz que deixou às escuras 18 estados, entre os quais os mais populosos. Assustadas, ou por pura precaução, as pessoas hoje foram às compras atrás de lanternas e velas...

Tem gente dizendo até que foi obra de hacker, ou seja, terrorismo tecnológico, o que o governo Lula nega com veemência.

O mais provável é que tenha sido efeito de um sistema mau gerido. Incompetência mesmo.

Foto: Agência Estado

10.11.09

O dominó de Berlim e o destino dos muros




Em artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo em outubro, o professor Giannotti fez uma afirmação que também diz respeito ao futuro dos muros: “Não me parece mais adequado pensar numa política que desemboque numa negação política, a partir da qual uma nova história teria início”. A redução de horizontes proporcionada pelas muralhas procura negar, tirando de vista, a ameaça que se esconde. E assim, a negação aposta numa acomodação improvável da história – o que é pior, fazendo de conta que a situação inexiste, contribui para que se chegue a situações-limite, quando a manutenção de uma ordem represada torna a fantasiosa realidade algo insustentável.

A celebração na capital alemã ontem simulou a queda de regimes políticos “do Leste” através de mil grandes pedras de dominó decoradas por artistas, que foram empurradas pelo ex-líder sindicalista polonês Lech Walesa. “O destino da humanidade é o que os seres humanos fazem dele”, falou o presidente dos EUA, Barack Obama, em mensagem gravada para o evento. Pena que a eleição de Obama ainda não significou o avanço que se espera dele. Com boa parte desse destino sobre seus ombros – pelo menos, é o ser humano de quem mais se aguarda, hoje, um bom exemplo – o primeiro negro na Casa Branca não conseguiu deixar a prática dos muros para trás.

A solução provisória dos muros pode parecer, para quem se serve de sua “segurança”, seja do lado de dentro (como os israelenses), seja do lado de fora (como os moradores do Rio, isolados das favelas), a solução mais rápida e eficiente. Mas se fosse tão simples, a discórdia que os muros encerram logo diminuiria, e não é o que se verifica. Cada muro levantado é uma afronta, um constrangimento e uma provocação a um dos lados. Por isso a discórdia tende a crescer, enquanto a paz depender de uma gambiarra murada.

Foto: Tobias Schwarz/ Reuters

9.11.09

O de Berlim e outros muros




A retirada de um muro não significa a extinção de todos. A destruição do símbolo da Guerra Fria, vinte anos depois, parece não surtir qualquer efeito sobre a capacidade da insensatez humana de erguer muros em lugar de soluções. A queda do Muro de Berlim encerrou um ciclo da história, mas não impediu que a história dos conflitos territoriais seguisse o seu trágico rumo – como segue na fronteira que separa o México dos Estados Unidos, ou na barreira que divide a disputa de fé entre palestinos e israelenses.

Em recente edição do programa de TV paga Globonews Painel, o filósofo José Arthur Giannotti disse que tudo o que faz um muro é adiar o problema que os seus construtores não se vêem em condições de resolver. O muro é desta forma, podemos dizer, um espelho da indolência, da incompetência e da falta de criatividade políticas – além de concretíssima confissão de intolerância e falta de vontade para o diálogo. O muro guarda o “mundo do bem” do “mundo do mal”, afasta os “escolhidos” dos “bárbaros”, protege o “paraíso” contra os invasores do “inferno”.

No mesmo debate, o professor Guilhon de Albuquerque afirmou que a mentalidade dicotômica permanece presente na diplomacia internacional, sendo exemplo evidente o bolivarianismo de Hugo Chávez. Para o professor Guilhon, apenas a China, neste aspecto, entrou de fato no século 21, rompendo os conceitos polarizados e buscando tirar proveito de uma realidade multipolar sem se importar com a antiga contenda ideológica.

Antes de tomar lições com a China, entretanto, vale questionar a facilidade com que a nova real politik do imperial capitalismo chinês tem atravessado o mercado liberal-democrata e a cultura ocidental. Das duas, uma: ou o sistema dirigista está perdendo força diante da fresta econômica, ou o “espírito do muro” que se espalha na Europa e nos EUA se mostra em sua verdadeira face, quando admite sem constrangimento a parceria com a ditadura chinesa.

Foto: NATO/Getty Images

5.11.09

Galeano proustiano




A Fliporto começou agora à noite em grande estilo, com palestra e leitura de Eduardo Galeano.

Referindo-se a seu livro mais recente publicado no Brasil - "Espelhos" - tendo na platéia a presença do tradutor, Eric Nepomuceno, e outros escritores, como Antonio Skarmeta e Ariano Suassuna, Galeano não podia ser mais proustiano:

"Nada melhor para compreender o universo do que um buraco de fechadura", disse ele.

Pelo buraco de fechadura da história oficial, Galeano conta histórias de personagens reais e fictícios, suscitando novos ângulos, colorindo cenários conhecidos.

"O arco-íris terrestre é mais variado e mais belo do que o arco-íris do céu", garante o escritor.

Os ouvintes-leitores de Porto de Galinhas e de todos os portos agradecem.

Foto: Vitor Tavares

3.11.09

Mundo perfumado




A mera visão do jardim desperta a memória do perfume das flores, assim como o cheiro da comida atiça o paladar a antecipar o gosto.

Há pessoas que realmente escutam as cores e formas que vêem, outras que enxergam os sons. São os sinestetas, cujo cérebro processa dois efeitos simultâneos a partir de um único estímulo sensorial.

A sinestesia tem origem genética, mas sua ocorrência serve a usos metafóricos desde muitos antes de decifrada.

Lembrei do fenômeno este fim de semana, na platéia do espetáculo “Mundo perfumado”, do Grupo de Dança Primeiro Ato. Foi no Festival de Dança do Recife, no Teatro de Santa Isabel.

A alegria que fica no ar durante a apresentação parece despertar mais que a nossa percepção visual. Será que a arte tem esse poder – de nos brindar a todos, por um momento, com a dádiva dos sinestetas?

O poeta Affonso Romano de Sant´Anna escreveu: “basta olhar a colméia/ para se ver ali/ a geometria do mel”.

Pois basta experimentar a fagulha de olhar o mundo perfumado no movimento dos corpos que fazem a alma do Grupo 1º Ato, para notar ali a geometria do perfume que o mundo pode ter, quando a vida é inspirada criativamente e projetada sobre espelho de poesia.

2.11.09

O Dia dos Mortos para os vivos




"Para que serve envelhecer?", eis a questão fundamental da vida, segundo o filósofo Luc Ferry.

Para ele a resposta é a seguinte:

"Se a experiência humana tem algum sentido é precisamente aquele que consiste na chance que nos é oferecida de podermos nos apartar ao longo de toda a vida de nossa condição primeira, particular, que é a de nosso nascimento."

E assim, conclui, "alargar a visão, amar o singular e viver às vezes a abolição do tempo que sua presença nos dá."

Ferry cita, ao final do capítulo do livro "Vencer os medos", o trecho de um poema de Victor Hugo:

O velho que volta para a fonte primeira
Entra nos dias eternos e sai dos dias cambiantes
Vê-se chama nos olhos dos jovens
Mas no olho do velho se vê luz.

Foto: Thiago Araújo/ Diário do Pará

1.11.09

A luz de Zooey





Chamada de “musa dos homens românticos” por Isabela Boscov na Veja desta semana, a atriz Zooey Deschanel encarnaria um ideal de beleza oposto ao de outras musas, como Megan Fox, representando a “essência”, enquanto Fox seria a “exaltação da forma”.

Nesses olhos azuis tomando toda a tela e atraindo toda a atenção, pode ser vista uma “capacidade de emitir franqueza” que dá a suas personagens um “comportamento sem afetação” cuja expressão vem conquistando cada vez mais fãs. “Ela é um sonho”, diz o título da matéria, motivada pela estréia do novo filme estrelado por Zooey, 500 dias com ela, na próxima sexta, 6.

Com seus olhos acesos e o sorriso fácil, Zooey convida os sonhadores a fazer coro com Romeu, exaltando-a como Julieta: “Oh, ela ensina as luzes a brilhar!”

Mas a espontaneidade exibida nos filmes e a sinceridade concentrada no olhar reforçam o fato de que é através do corpo que Zooey brilha – como qualquer musa do cinema. Se não está exatamente ao lado de Megan Fox, poderia ser perfilada junto a Debra Winger, Michelle Pfeiffer ou Natalie Wood.

A beleza que reluz em Zooey também é a beleza da forma humana, tão sedutora naquilo que mostra quanto naquilo que apenas sugere.


30.10.09

O morto pede passagem




O presidente dos EUA, Barack Obama, bate continência ao corpo de soldado morto no Afeganistão.
Morto na guerra pela pátria... que continua matando gente em nome de que?
Obama analisa a possibilidade de enviar mais corpos para o Afeganistão (sem contar os que deixa por lá).

Foto: O Globo/AP

28.10.09

Dia Internacional da Animação






Para marcar o dia dos cartoons, nada melhor do que Pernalonga. O desenho praticamente acompanha a história da TV, tendo aparecido pela primeira vez em 1938. No Brasil, ele chegou nos anos 1960.
Com seu cinismo malandro, a vontade de levar vantagem em tudo e a disposição de nunca perder uma piada, Bugs Bunny se sente em casa - mais do que Zé Carioca, é Pernalonga o personagem animado que encarna bem o "jeitinho" nacional.

27.10.09

A imagem que denuncia

















O corpo emite calor. Quando a gente fica doente, e a doença manifesta uma febre, o corpo fica mais quente. A temperatura elevada pode ser detectada através da imagem produzida por câmeras especiais – scanners térmicos – que apontam exatamente a diferença entre a saúde e a doença.

No Aeroporto de Manila, nas Filipinas, foram colocados hoje quatro novos scanners térmicos no saguão de desembarque dos passageiros, com a capacidade de captar variações de temperatura nos corpos a uma distância de cem metros. A medida é para identificar eventuais portadores da Gripe Mundial, ou gripe A (H1N1). Até este mês, pouco mais de 5 mil casos de gripe A foram registrados, causando 30 mortes no país.

(Foto: Rudy Santos/Philstar.com)

História de conto de fadas




Vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro, "A vida dos outros" foi citado esta semana pela ex-ministra alemã Marianne Birthler, atualmente na Unicef e conselheira da Transparência Internacional.

Em entrevista à revista Istoé, Birhtler diz que o filme é uma obra de pura fantasia, pois não há evidências históricas que comprovem que um caso como o retratado tenha algum dia ocorrido.

Como todo o sucesso alcançado pela produção, de 2006, se baseia nessa vinculação realista com as práticas na Alemanha Oriental poucos anos antes da queda do Muro de Berlim, a declaração vale como alerta para os limites da licença poética, indicando que devemos sempre levar muito a sério, como premissa, a desvinculação entre a história roteirizada e o roteiro da história real.

Eis o trecho da entrevista em que o filme surge na conversa, em provocação direta da repórter Carina Rabelo:

ISTOÉ - O filme "A Vida dos Outros" (2006) mostra como um policial protegeu um investigado por consciência. Há algum paralelo com a realidade?

Marianne - O enredo do filme é um conto de fadas. Não temos notícia de oficiais da Stasi que protegeram pessoas espionadas. Isso nem teria sido possível, pois os colaboradores da Stasi também eram supervisionados. Na rotina da Stasi, todas as atividades descritas no filme eram separadas e executadas por colaboradores distintos, que nada sabiam um do outro e, muitas vezes, nem conheciam a finalidade da sua tarefa. O objetivo era impedir que uma pessoa soubesse demais ou pudesse pôr algo em movimento.

26.10.09

Microsimetria




A foto aí de cima é do brasileiro Bruno Vellutini, biólogo da USP, que ficou em quinto lugar no concurso Nikon Small World de microfotografia. Retrata a "superfície oral" de uma estrela do mar em ampliação de 40 vezes.

E logo abaixo, a foto campeã: detalhe da planta Arabidopsis thaliana, captada por Heiti Paves, da Estônia.

A simetria do mundo natural é cada vez mais impressionante - e quanto mais longe podemos ver, mais pasmos ficamos.




25.10.09

Relógio romântico




A viagem no tempo é atraente porque esconde uma fantasia nem sempre confessável: a de estar em dois lugares simultaneamente. De preferência, pontos opostos, cuja existência paralela implique na possibilidade de fuga, abrindo um túnel no universo linear marcado pelo relógio humano e permitindo a escolha ambígua, imprecisa, provisória, uma vez que a qualquer momento o momento pode ser outro, não sendo o presente garantia de nada.

Nessa perspectiva, surge a mesma imagem em espelhos justapostos, criando reflexos ligeiramente fora de sintonia. Você pode se encontrar com a paixão de sua vida ainda criança, e preparar o terreno para a confirmação do destino. Pode estar diante de si com uma diferença de décadas de idade, e dar conselhos valiosos para si mesmo. Pode ver o futuro e o passado enquanto perde o compasso da hora – e como é uma espécie de lei das viagens no tempo que aquilo que está escrito necessariamente se cumpre, você não pode mudar nada enquanto viaja, não há o que fazer, a não ser conformar-se com o irreversível, o inexorável.

No fim das contas, o viajante do tempo parece condenado a um ir e vir sem sentido. A fuga é um poder que não compensa. A alegria de subverter a cronometria logo sucumbe ao sofrimento de impotência na presença de fatos determinados. Uma presença duvidosa, realista e ilusória, a encher de culpa o fugitivo amedrontado. O poder sonhado se transforma em tal transtorno que pode ser retratado como doença psíquica, ou anomalia genética. Como se sair da linha do tempo fosse uma doença rara, sem cura.

Estar simplesmente presente, aqui, como escreveu Rainer Maria Rilke, é demais: sempre alguma coisa nos requisita, e de uma estranha maneira o mundo continua a nos chamar, disse o poeta, citado pela escritora Audrey Niffenegger. Esse constante chamado do mundo é uma pressão sobre os atos que ainda nem pensamos, sobre as idéias que nem descobrimos, sobre as palavras que nem ensaiamos.

E sobre o amor que mal acordamos... O tempo mais que tudo aflige os enamorados, como o demonstra o próprio Rilke neste poema:

O mundo estava no rosto da amada -
e logo converteu-se em nada, em
mundo fora do alcance, mundo-além.


Por que não o bebi quando o encontrei
no rosto amado, um mundo à mão, ali,
aroma em minha boca, eu só seu rei?


Ah, eu bebi. Com que sede eu bebi.
Mas eu também estava pleno de
mundo e, bebendo, eu mesmo transbordei.


(Tradução: Augusto de Campos)

O martírio do mundo-além pode suscitar o confortável delírio determinista, que ameniza a visão apaixonada com a certeza de que o impossível, uma vez tocado, será colhido, adiante, como o natural desfecho da semente brotada. Permanece, contudo, o desconforto. A sensação de plenitude contradiz o insuperável vazio, o fim da solidão é também a chegada da solidão sem fim.

Por isso estar e não estar aqui, agora, habitar e desabitar o real são faces de um conflito posto em marcha, notadamente, quando o tempo se altera, diminui, para e acelera, movido pelo mecanismo descontínuo dos relógios românticos.

Te amarei para sempre (The time traveler’s wife, EUA, 2009)
Direção: Robert Schwentke
Com Rachel McAdams e Eric Bana.
Baseado no livro de Audrey Niffenegger.

Fumaça em Bagdá




Coluna de fumaça se ergue novamente na capital iraquiana.
Desta vez não foram mísseis americanos, e sim dois carros-bomba em atentado terrorista.
Deve ser a cidade que mais queima na Terra nas últimas décadas.
Depois dos cogumelos japoneses de Hiroshima e Nagasaki, as fogueiras de prédios e corpos que se lançam aos céus de Bagdá e circulam o mundo pela TV encerram as cinzas de contradições políticas e religiosas de nosso tempo.

24.10.09

Corpos em oferta




Em reação criativa à violência, a ONG Rio de Paz ocupou hoje a praia de Copacabana com carrinhos de compras carregando vítimas simbólicas da guerra civil. O protesto foi inspirado em vítima real, encontrada desse modo no Morro dos Macacos, em Vila Isabel, cuja foto estampou os jornais semana passada.

Viagem visual




LoopLoop from Patrick Bergeron on Vimeo.

Esse curta é muito bom. Exibido ontem na Janela Internacional de Cinema do Recife, o efeito misto da velocidade com a fragmentação é fantástico.

E pelo menos na tela grande, a sensação de movimento para quem está vendo é bem real.

Matadouro

A foto de Antonio Lacerda, da Agência EFE, mostra um policial puxando uma carroça com corpos encontrados nos morros do Rio, depois de uma semana sangrenta.

Chocante. Massacrante. Horrível.

Um pouquinho de noção nessa guerra civil aberta aconselharia, ao menos, o recolhimento de cadáveres com o mínimo de respeito - pelos mortos e pelos vivos.



4.10.09

A casa na cachoeira












Vida quieta no canto espreita intrusos, confere gavetas. Retoca gestos, reconstitui silêncios. Acostumada à banal reprise das horas – banalidade em cascata que se torna mais cara ao hábito que se cultiva.

O hábito tem o que proteger. O romantismo descoberto na infância é regado até a morte. A única exceção permitida ao rigor da vida quieta: fecha o círculo complementando a regra, sendo, na verdade, a sua melhor justificativa. A outra face da quietude, onde repousa o prazer da instabilidade por perto, raiz da alegria serena multiplicada por duas.

A costumeira presença é o álibi contra os desvios, a defesa diante de todos os males e a desculpa para a despensa de oportunidades que perturbariam a convivência, tirando as coisas do eixo. As oportunidades perdidas garantem a cumplicidade eterna, dando a impressão convicta de que a melhor oportunidade é a que resiste a todas as outras. Como um sonho pendurado na parede enquanto outro sonho se passa.

Mas a costumeira presença também bloqueia o amargor do tédio, ativando a sensação do sabor que vale a pena repetir. A silhueta no espelho não provoca cansaço algum. O mesmo reflexo conhecido, em uma infinidade de ângulos impensáveis. Assim a vontade aquietada faz-se refém satisfeita da surpresa constante, ali mesmo, dentro de casa, na companhia que não muda e não enjoa.

Até que a surpresa some. A eternidade afia os dentes, anunciando a tempestade. Um silêncio medonho desperta. A casa está solitária, a cachoeira de bons momentos, seca. Refletida univocamente, a imagem não traz a mesma graça. Bate e volta uma sombra depois do brilho ter ido embora.

Sem a dádiva junto, sobe a melancolia que nem se desconfiava, pois um manto seguro a escondia. A casa agora é previsível: tudo responde à lógica do indivíduo entregue aos seus atos e hiatos, miséria e desassossego. Para a destruição total, a demolição iminente não vem do lado de fora. Vem do lado de dentro. As fundações ruíam antes que se insinuasse a ameaça ao redor.

A casa na cachoeira é a fotomontagem de um paradoxo. Paz à beira do abismo, vertigem a um passo da poltrona da sala. A casa real tem que voar até a cachoeira imaginária. A casa ideal, fora do chão, sem a raiz que a suportava, pode enfim ser levada para o lugar onde mora o sonho, no despenhadeiro da memória.


Up – Altas aventuras (Up, EUA, 2009)
Direção: Pete Docter
Animação.

23.8.09

Salvo-conduto

A palavra no palco se expõe como se não tivesse corpo: como se não usasse boca nem ouvidos, como se não gastasse língua e nariz... Além de tudo, a palavra se mostra como se não levasse olhos! A palavra no palco é livre como palavra cega.

No escuro do palco, onde há menos escolhas, a palavra canta em liberdade. Como se lhe faltasse horizonte – mas também como se não lhe envolvessem, jamais houvessem lhe envolvido, um único muro, alternativas bifurcando-se, limites de qualquer natureza.

A liberdade da palavra é aquela que escapa inclusive ao instinto. O instinto é obediente. A palavra que sobe o palco desobedece. Comete o desatino premeditado. Presa do corpo e livre dele, a palavra traz belo paradoxo: para cumprir um roteiro, descumpre outro. Adensa a vida pairando acima da mera sobrevivência.

A palavra no palco é nua sem saber que a nudez existe. Por isso mente com sinceridade, mente e convence – quando lhe emprestam ouvidos, olhos, nariz e boca, o resultado não pode ser outra coisa senão a verdade.

A mudança se faz com a palavra. Da guerra à paz, a palavra atravessa um campo de batalha. Prisioneira, a palavra cala quando soa em vão. Sufocada, a resistência espera a hora da palavra. Mutilada, chora o que o grito de dor não recupera.

Na ira incontida dos que se anulam, na carga invisível das cicatrizes, a palavra exprime lamento e lembra o resquício do sonho roubado. O desespero vê de soslaio um consolo, com a lágrima que rola na face endurecida pela amargura.

O testemunho do horror consome de uma vez futuro e passado, deixando no lugar do indivíduo presente um estranho desfigurado a cada gota que passa. A palavra não cura, não traz de volta – mas busca no sonho a costura do ser desencantado.

A justiça que importa vem edificada pela palavra. Para dizer da igualdade no sofrimento, na impotência, na vergonha. Para ecoar essa igualdade se a palavra é uma ordem – ou quando é mais imperativa, explode em forma de arte.

Salvo-conduto em branco, a palavra no palco conduz e corrige a trama, de ato em ato.


Tempos de paz (Brasil, 2009)
Direção: Daniel Filho.
Com Tony Ramos e Dan Stulbach.

7.8.09

Teatro do absurdo

Com o sonho de virar protagonistas da história nacional, jovens chineses levam o entusiasmo de um grupo de teatro universitário para o movimento de resistência contra a ocupação japonesa durante a Segunda Guerra Mundial. A glória quente do aplauso é descartada em favor da expectativa pelo julgamento frio, a glória póstuma, porém duradoura, da História com “h” maiúsculo.

O fingimento artisticamente praticado desce o tablado para ganhar o lado de fora. A arte do ator deixa de ser um episódio cercado de rituais, transformando-se em instrumento de um ideal, a serviço da lógica da força máxima contra o inimigo. Assim, a causa do aniquilamento do outro, do assassinato brutal em nome do bem comum, é o desfecho esperado, ainda que adiado, em cada encenação.

A espiã disfarçada que se aproxima do alvo para atacá-lo, apaixonando-se e se deixando apaixonar por quem odeia, não faz uso da artimanha impunemente. O conflito a persegue. O sentimento simulado perde terreno. Uma nova gama de emoções aflora, advinda de reações imprevistas aos atos pré-programados.

Ao empurrar a verdade para a fogueira, a mentira também se queima. Se a aparência maquinada precisa ser perfeita para que a armadilha funcione, sob as cinzas do fingir constante, toda aparência é mentirosa. E a própria habilidade de ver, submetida à vontade de mentir, mal distingue um palmo adiante do nariz.

Tal ruptura entre a arte e a vida, aberta com violência de modo a permitir a infusão de uma na outra, feito matérias distintas, pode deixar em estilhaços a imagem que o sujeito tem do mundo e de si. Quanto mais fundo o mergulho na aparência criada, maior fica a distância entre a identidade e a falsificação dela.

Basta desconfiar de um fingimento e a realidade se desfoca: cada ponto refletido pelo avesso revela superfície opaca, de luz ausente. Na novela Um, nenhum, cem mil, Luigi Pirandello escreveu:

“Quando me punha diante de um espelho, acontecia uma espécie de sequestro em mim, toda espontaneidade acabava, cada gesto meu me parecia fictício ou postiço. Eu não podia me ver vivendo.”

Esse auto-sequestro decorreria da visão inesperada do hábito invisível que nos ata. Imagine o exercício fatigante de agir como se estivesse sobre um palco, sem palco; defronte ao espelho, sem espelho. Não apenas cada gesto seria acompanhado como se fosse ficção, mas o próprio pensamento, a fim de se passar por verdade, assumiria a condição de pensamento postiço de um personagem em ação.

Desejo e perigo (Lust, caution, China/EUA, 2007)
Direção: Ang Lee.
Com Tang Wei e Tony Leung.





1.8.09

De paradigma a piada














As restrições para entrar e viver em terra estrangeira são um sinal desconcertante do descompasso entre a política e o espírito de nossa época.

A burocracia resiste, por natureza, à disposição de mistura e convivência, cuja negação é anacrônica num tempo em que até as gripes tratam o planeta como um lugar só.

Existem dificuldades práticas para uma “abertura geral dos portos” que faça da patrulha de fronteira coisa do passado. Massas de jovens desempregados adorariam a chance de emigrar em busca de trabalho. Legiões de refugiados espremidos nas zonas de exclusão abraçariam a possibilidade de retorno e a liberação de um destino possível.

Há certamente milhões de pessoas, hoje, que correriam aos portões nacionais abertos feito ávidos consumidores avançariam numa loja em liquidação. No primeiro momento, é provável que algo assim acontecesse. Mas depois, esgotada a ânsia inicial, é possível imaginar que os fluxos para os locais mais cobiçados encontrassem seu equilíbrio, amenizando o susto dos autóctones em face das “invasões bárbaras”.

No fundo, a construção de muros, cercas, barreiras e postos contra o livre trânsito do cidadão é a grande contradição do discurso globalizante. A ilusão de separação é tão antiga quanto a certeza de segurança dentro das cidades muradas na Idade Média. Mas a sensação de segurança segregada proporcionada pela exclusão é vergonhosa. A doutrina da segurança quer impor a paz pela força, o que é logicamente absurdo. A paz não está dentro das fortalezas. A paz é quando se pode ir ao lado de fora sem medo, quando a relação com o outro não é discriminatória.

O controle de entrada e saída dos países deve assumir novos padrões no terceiro milênio. O documento será solicitado como informação, não para constrangimento, tampouco cerceamento. A vigilância do século 20 e dos primeiros anos do 21 será entendida, lá na frente, com um olhar parecido ao que lançamos aos nossos antepassados, para os quais o estrangeiro era apenas um prisioneiro de guerra sujeito à escravidão.

A transição para essa nova realidade, em que o espaço de liberdade se globaliza, conferindo à cidadania o status planetário, já começou. É possível percebê-lo no instante em que o carcomido paradigma do visto de permanência vira motivo de piada – na comédia, no riso fácil sobre o ridículo, sobressai o reconhecimento da mudança em curso.


A proposta (The proposal, EUA, 2009)
Direção: Anne Fletcher
Com Sandra Bullock e Ryan Reynolds.

25.7.09

A música da letra

A pausa é um silêncio por onde passa a respiração. O verso: caminho de silêncios. Pela voz o verso respira, fala ao átomo despertado.

Na respiração compassada a melodia aparece, necessária. A poesia salta na pausa que ressoa, na garupa do verso musicado.

Essa coisa viva enquanto ausente, pura quando misturada, não é vista senão distante. A trova é maior que o trovador, ainda que ele sobressaia somente se a trova existe.

Como tempo filtrado no pulmão, a mistura que vem da voz ritmada em prol da palavra apura no verso a fusão entre o som e a letra soprada, a nota e a frase montada, o leitor e o coro da multidão. Cantar é mais do que ler – é achar na harmonia do ar a escrita em ondas de canção.

Lugar em que a letra se encaixa, o caminho de silêncios ganha direção, a música dá forma à palavra como se não fosse possível distingui-las. Porque a palavra é imagem que não tem forma, e a música, forma que não tem imagem. Da união nasce um significado. Reconhecemos na letra a melodia, e vice-verso, feito a expressão de uma coisa só.

Em tal encontro, o alfabeto não disputa com a partitura. Os sinais não operam em planos iguais. São linguagens que se entendem sem ser a mesma linguagem. Sinais estrangeiros referindo-se ao mundo sem dividi-lo em reinos apartados, nem dimensões paralelas. O real expandido ao infinito – o território da poesia.

A exploração do território pode resultar na descoberta de faces do tempo ao longo do caminho. Entre elas, a brevidade do sopro, uma razão suficiente para evitar discussões estéreis, para Adriana Calcanhoto. A evidência do passado, onde tudo espera, já que o futuro não é mais que uma brincadeira em que se tropeça, segundo Tom Zé.

Ou o desejo voraz, que cresce e fortalece o coração que consome e também é consumido, presente no poema de João Cabral, Os três mal-amados, declamado por Lirinha:

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato.
O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço.
O amor comeu meus cartões de visita.
O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.
O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas.
O amor comeu metros e metros de gravatas.
O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus.
O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.
O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas.
Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X.
Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.
O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia.
Comeu em meus livros de prosa as citações em verso.
Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.
Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete.
Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.
O amor comeu as frutas postas sobre a mesa.
Bebeu a água dos copos e das quartinhas.
Comeu o pão de propósito escondido.
Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.
O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.
O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas.
O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras.
Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.
O amor comeu meu Estado e minha cidade.
Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré.
Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés.
Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia.
Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.
O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas.
Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam.
Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta.
Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.
O amor comeu minha paz e minha guerra.
Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão.
Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

Palavra (en)cantada (Brasil, 2008)
Direção: Helena Solberg.
Documentário com as participações de Adriana Calcanhoto, Tom Zé, Lirinha e Chico Buarque.

7.7.09

A verdade ideal

Como você inventaria o que não existisse? Como entenderia ao cruzar no meio da rua com uma idéia perfeita? Nem tudo que se idealiza é pleno desejo, ou reflete somente o plano polido do espelho.

Ela é aquela que você vê, mas seu vislumbre ultrapassa o conceito da visão. Porque ela é, pra você, bela e sublime. A beleza dela lhe parece o mero conduto do que não se exprime sem se perder, e não se percebe sem um grande susto.

Ela lhe perturba, e por perturbá-lo assim tão claramente é que a existência dela lhe confronta. Você percebe e se assusta. Você pára e escuta, na esperança de que a ilusão se revele, e se revelando, fuja. Mas no íntimo você não quer a fuga, quer o oposto da fuga.

Um senso de realística eternidade toma conta de você ao estar na presença dela, e você imagina o quanto seria bom e fácil e simples respirar a mesma atmosfera que ela por mais vezes, até por muitas vezes mais. E se isso transparece, ela apenas acha graça no momento em que você, crente que vivencia o eterno, não se dá conta de que seus braços e pernas viram mil braços e pernas e não decidem aonde ir. Ela acha engraçado o seu desalinho, sem sorrir, pois pouco importa: aquele é seu instante, não o dela, a sua eternidade, não a dela.

Ela não é fruto de sua imaginação – ela se transforma no fruto mais doce da sua imaginação a cada encontro, por mais fortuito, breve que seja.

Você imagina que esses encontros podiam depender menos do acaso. Que a sensação de eternidade que lhe toma junto dela abandonasse o realismo maluco que enlouquece, assumindo a leveza de um dia comum. Que o sorriso dela não fosse a estrela que explode irradiando luz e energia que você presencia num lance de sorte, e sim, a chama da fogueira ao seu lado, à noite.

Imagina os olhos dela prestando atenção em algo que pode ser dito uma extensão sua. Imagina os olhos dela prestando atenção no que ouve enquanto você lê. Imagina os olhos dela buscando no vazio uma ligação com o que você pensa, mesmo que você não tenha nunca como saber.


A mulher invisível (Brasil, 2009)
Direção: Cláudio Torres.
Com Selton Mello, Luana Piovani, Vladimir Brichta e Maria Manoella.


4.6.09

Onde o destino não está

Menina, o destino se esconde de você. Sabe aquela pedra lançada na água, da qual restam rápidas ondas? Mas a pedra, cadê?

A pedra atirada é o próximo passo, talvez o último lance. Quando o futuro é o alvo, menina, dificilmente acertamos... Dizê-lo sempre móvel, mutante, é dizê-lo instantaneamente fora de alcance. O que significa: impensável, a não ser na busca da fantasia, do alucinante. E dizê-lo imóvel, visível, menina, como se agora fosse, é imputar ao inexistente o status de fato pronto, como um efeito fechado, concluído – mas assim, terminado, será que ainda seria aquilo que pode ser?

Nas estrelas ou nas cartas, na espiralada trança genética ou nas linhas da mão, menina, o que se toma por escrito provoca uma aflição, sabe por que? A antecipação interfere na causa que a produz. O que se declara aparece. Assim é preciso alterar o dito, pra mudar o fato. Enquanto isso, menina, o porvir permanece o mesmo.

O que é diferente de pensá-lo idêntico em cada instante, independente do que se faça. A imaginação traça o rumo dos acontecimentos e desenrola um novelo que não pode enxergar onde acaba. O ponto de partida , menina, é mais importante – o ponto de concentração do que já houve, na inflexão do que será.

Esse negócio de destino é pra quem não sabe ou não quer saber onde está. Tem um poeta, Mário Quintana, que escreveu que, enquanto se teme o futuro, é o passado que nos atropela e mata. De olhos ocupados na miragem, menina, a gente esquece de onde veio e o que raios fazer aqui. Acorrentados à ilusória trama que inventamos, a verdadeira trama se esfumaça – ou escorrega na água, feito pedra em mergulho sem volta.

Planeje o dia seguinte, se quiser. Mas não o dia todo... Nem queira adivinhar a vida inteira. O futuro, menina, é um lugar pra ir sem pressa, e voltar logo. Como a intuição, segundo Quintana: quando você dá um pulinho no futuro sem demorar.

E por mais que você semeie, prepare, desenhe e tenha toda certeza, não se esqueça de que o destino adora fazer surpresa. O destino é assim – de repente o presente se revela e dá um susto na gente.

O destino, menina, não é o que você vê, nem vai sair de onde está.


Heróis (Push, EUA, 2009)
Direção: Paul McGuigan
Com Dakota Fanning, Camilla Belle e Chris Evans.


3.5.09

Simples não é fácil



Um alto grau de comprometimento com a realidade é esperado no inventário de perdas e ganhos da maturidade. Na idade da irresponsabilidade, o que se aguarda, e em geral desponta, é fantasia – a primazia da abstração sobre o concreto, do ideal sobre o possível, da imaginação sobre a razão.

Quando o pragmatismo precoce invade o território adolescente, questiona-se como preocupante a troca efetuada. Como se na apreensão primária do mundo, o universo racional em formação ainda estivesse tosco para conceber soluções rápidas, reações objetivas e respostas simples.

Atribui-se a Albert Einstein a compreensão de que tornar as coisas simples não é simplificar as coisas. Pois a simplificação pode levar ao erro comum de confundir o simples com o fácil. Nem sempre é assim.

Na adolescência, o cérebro dispõe de massa de fantasia suficiente para, talvez, produzir uma objetividade e uma clareza que, depois, na vida adulta, muitos encontram dificuldade em formular. Não por acaso, é também de Einstein a afirmação de que a imaginação é mais importante que o conhecimento. Mais importante para que? Para criar, para inventar escapes nos becos sem saída da razão.

O que seria impossível ao exame da mente madura, é apenas a conjectura de outra opção para aquela despojada da complexidade de visões de mundo entrecortadas. A experiência, de fato, pode atrasar, em alguns casos, ao invés de acelerar a decisão. Se depositar só obstáculos e distorções na capacidade de discernimento, a experiência pode mesmo impedir qualquer sucesso na escolha.

O aparente descolamento juvenil do plano real pode ser vantajoso na hora em que o maior comprometimento é requerido. Sem baú onde revirar, sem cicatrizes em que mexer, o ser imaturo dispõe de uma gama de possibilidades lógicas que não aparecem logo a quem possui a visão turva pelo acúmulo de material envelhecido.

Por outro lado, a imaturidade tem um prazo que o fardo temporão de responsabilidade, por si, não encerra. A luz da inexperiência é necessária, iluminando aquilo que falta, o caminho virgem, os tropeços e os desvios que fazem o crescimento.

Reconhecer um desvio é olhar de frente o presente, admitir o acidente e seguir adiante, ao som da simplicidade.


Juno (EUA/Canadá, 2007)
Direção: Jason Reitman
Com Ellen Page, Michael Cera e Jennifer Garner.

17.4.09

Retrato fiel

Invento em você uma extensão diferente, na contramão do que sou, por cima dos controversos contornos que me revelam igual. Por você, assim, me exponho com outra exatidão: não mais do esboço borrado, meio apagado de tanto ser visto, mas dos traços frescos, imprevistos em que ressurjo do teu borrão.

Porque te reconheço facilmente o meu retrato mais fiel, neste instante, neste agora, neste mundo, em cuja brusca presença volto a encontrar-me, compartilho a surpresa de outros ângulos, como se estivesse eu fora de mim ao deparar-me com a imagem tão nítida de minha alma em teu semblante.

A mesma história contada de outra forma não é a mesma história. Você me deixa à vontade em novos trajes, refigurado sem ter renascido, impregnado do ar puro que sorvo em seu louvor. Nem ligo se te chamam versão de antigo vício, se és a perfeição da trama aflitiva que parece findar com teu sorriso.

Você me conduz por caminhos conhecidos a lugares há muito esquecidos. Atravessamos parques públicos como se estivéssemos em labirintos, descobrindo atalhos, andando em círculos, achando a saída lentamente. A ansiedade do passo vai embora, na diversão garantida pela experiência duplicada: sabemos que não somos um, mas sentimos que não somos dois... E nessa hora fundamos uma espécie de consciência dupla.

De ausência dupla também. Fujo de mim e do mundo através de ti, sob a tua sombra me abrigo do engano e da dor do sol a pino. É outra a lucidez que me ofertas, é outro o brilho descido desse olhar que me conforta. O desejado encontro da segurança com a paz move-me na tua direção.

Utopia em carne e osso, você destrói o que me destrói, preenche o que me corrói, acende o que me ilumina. Lança-me fora do tempo, liberta-me o corpo do cárcere, recupera-me do desencanto de uma identidade perdida.

A necessidade da utopia é tamanha que chego a tomar a existência por uma referência estampada na tua face, um rastro invisível nos teus gestos, o alvo certo de todas as tuas ações. Da essência que te fiz, retomo o barro de que te faço, desenho-te à minha semelhança.

Será que me inventas na contramão do que és, sobre contornos apagados de tanto vistos? Serei o teu retrato fiel, neste agora, neste mundo?


Ele não está tão a fim de você (He’s just not that into you, EUA/Alemanha, 2009)
Direção: Ken Kwapis
Com Ginnifer Goodwin, Jennifer Aniston, Ben Affleck e Scarlett Johansson.

22.2.09

O poço e a árvore

Eles atingiram pontos opostos, um encolhido no escuro, o outro assustado lá em cima, feito dois bichos acuados, em fuga. Separados antes de consumarem a separação. Enquanto um cai do solo falso de uma armadilha, o outro sucumbe à paralisia comum ao último lance da escalada – e assim, um busca a luz que vem do alto, no momento em que o outro sonha com a segurança vertiginosa do chão.

Depois do caminho longo de mãos dadas, de repente se encontram como o fundo do poço e o alto da árvore, cada um no seu canto, sozinhos, perdidos, náufragos do olhar cujo relance, antes, significara a confiança de uma jornada sem riscos. O primeiro naufrágio, da paixão, fizera da união de dois uma ilha segura fora do mundo. Agora, o segundo naufrágio fez o mundo surgir de novo e a ilha sumir por desencanto.

O mais difícil é acreditar que não ocupam o mesmo lugar. Tudo o que queriam na partida era trilhar a mesma estrada, no rumo idêntico cujo destino não mudaria, desde que houvesse a ilha e a garantia de que o porvir imaginado não cederia à oxidação, não baixaria a guarda para invasores de sua pequena utopia. O mais difícil é acreditar que a utópica ilha desapareceu – ou, pior, que nunca existiu.

Uma descoberta se insinua na incredulidade dividida: descobrem que a ilhota de dois não suporta duas utopias.

Do alto da árvore e de dentro do poço, perguntam-se como foram parar ali. Seria possível voltar ao começo, retornar ao ponto em que os passos não tinham sido dados e, portanto, o destino não tinha saído ao seu controle? (Como se o destino apenas pudesse vingar enquanto não fosse, como se o futuro apenas valesse enquanto não chegasse.)

Onde estava o sonho que sonharam? Não se lembram... ou pelo menos, não se lembram da mesma forma quando, lá para trás, o que importava era apenas o outro, as mãos entrelaçadas e a extensa liberdade prometida a ambos.

O sonho unificado na ilha foi se modificando à medida em que a extensão livre ia se tornando mais curta e menos livre, preenchida pelos anseios, as metas imediatas, as carências e os êxitos de cada um. Os planos vagos e eternos do casal divergiram dos planos concretos e mutantes dos indivíduos, até que o sonho evaporou.

A paixão imortal não tardou a entrar em coma. O futuro idealizado em seu êxtase e glória se fechara num modelo intocável de realização conjunta, do qual dificilmente seria dito que estava, àquela altura, intocado. A ilha afundou no mar do real.

Restava uma ligação entre o poço e a árvore, à espera de um desfecho, uma resposta para o impasse – a ligação com o passado submerso na memória da pequena utopia.


Foi apenas um sonho (Revolutionary road, EUA/Inglaterra, 2008)
Direção: Sam Mendes
Com Kate Winslet e Leonardo DiCaprio.


30.1.09

O mundo não é nosso?

Há algo destoante na fertilidade de um planeta isolado, tão longe de planetas da mesma espécie como se outros nem existissem. Como se o homo sapiens não fosse como os outros seres, e não pudéssemos partilhar da engrenagem fértil que nos inclui sem um grande pasmo, antes de qualquer fascínio.

Saint-Exupéry escreveu: “Em um mundo em que a vida se une tanto à vida, em que as flores amam as flores no próprio leito dos ventos, em que o cisne conhece todos os cisnes, só os homens constroem a sua solidão.”

A singularidade da Terra eleva a “sensação térmica” do ser que dirige o olhar para fora da ilha planetária, da atmosfera de vida, e não vê nada ou ninguém no ponto mais remoto acenando com um possível resgate. E a solidão humana se crê, assim, universal.

Para não pensar no assunto, ou se consolar pelo silêncio, o macaco falante inventou a posse da ilhota terrestre. Virou o “rei da selva”, o “filho de Deus”, assumiu o controle do conhecimento e almeja a regência da natureza. Fez do privilégio da visão consciente o motivo bastante para se considerar “dono do mundo”. Fez da solidão implacável uma desculpa para agir como se estivesse, de fato, sozinho, no controle de um barco vazio à deriva no cosmo desértico.

A noção matemática de posse abrange as noções de inclusão e domínio, expressa na teoria dos conjuntos pela idéia de grupos maiores contendo grupos menores ou elementos individuais. Segundo tal fórmula, diríamos que a Terra é um elemento do homem? Ou que o homem é um elemento da Terra? O que parece sensato? Matematicamente, portanto, soa absurdo dizer “o nosso planeta” no sentido de referência a um objeto de posse humana.

Por outro lado, no reino natural – no conjunto maior da biosfera – que pensamos tutelar, a posse não é realidade incomum. A biologia é cheia de exemplos, e atinge os mamíferos autoproclamados “superiores”. A mãe que carrega o filhote tem por certo que o filho é “seu”, pela relação simbiótica estabelecida, ao menos até que a necessidade exija. A lógica persiste no habitat que possibilita a proliferação de gerações de uma mesma espécie. A Terra tinha os dinossauros, os dinossauros não tinham a Terra.

A relação da humanidade com o planeta que nos carrega é especial, do prisma de nossa aparente potência de modificação da realidade terrestre. Mas não somos os proprietários deste pequeno ponto celeste, e muito menos da vida que emerge, fenece e ressurge no intervalo entre eras glaciais. O que fazer com a não-posse? O que fazer com a desconcertante liberdade do homem animal?

A percepção de que o mundo não é nosso pode gerar uma revolta inútil contra fatos inexoráveis, e apenas acelerar a extinção humana. Ou pode trazer um pouco de humildade à celebração de nossa virtual solidão – e aí, recordemos outras palavras do mesmo Antoine de Saint-Exupéry: “Que misteriosa ascensão! De uma lava em fusão, de uma lama de astro, de uma célula viva germinada por milagre, nós saímos e pouco a pouco nos elevamos até escrever poemas e pesar as vias-lácteas.”

Até onde vamos nessa ascensão, até onde vinga a nossa germinação, qual a extensão do milagre humano ou a duração da linha que nos trouxe do acaso – são questões que escapam do nosso campo de visão. Mas esse alcance depende, possivelmente, de nossa capacidade de superar a vontade de poder provinda de um notório complexo de inferioridade que acompanha toda solidão.


O dia em que a terra parou (The day the Earth stood still, EUA, 2008)
Direção: Scott Derrickson
Com Keanu Reeves, Jennifer Connelly e Kathy Bates.
Refilmagem de clássico da ficção científica de 1951.



4.1.09

Castelos de areia

Nesse estado alterado de consciência a realidade é o que menos importa. O mundo reduz-se a uma única visão, que consegue dar forma e cor inéditas ao mundo. A novidade desaparece com a desilusão, e com o retorno do velho cenário em preto e branco capturado pelo olhar a maior parte do tempo.

De um ponto de vista externo, o apaixonado está quase sempre enganado. Aquilo que lhe aparece não é bem o que parece, aquilo que sente não é tudo, e aquilo que diz não é só o que devia dizer. Há muito mais para notar e explorar do que supomos quando somos monotemáticos.

A restrição do significado – o universo cabe na luz de seu rosto, no som de sua voz, na presença de seu corpo – é o maior engano. O chão que some sob os nossos pés ou se apresenta como nunca antes, com tal solidez, tem o piso falso. E sabemos disso. Eis o pior. Tudo faz tanto sentido de uma hora pra outra que não pode estar certo, seria fácil demais. Seria bom demais: sem coisas incompreensíveis, sem perigos ameaçadores, sem qualquer sombra por perto.

O que não limita à mentira o objeto valorizado pela febre amorosa. O engano das paixões não as torna erros puros – assim estaríamos cometendo, aliás, o mesmo erro duas vezes (e de fato, cometemos, várias vezes). Mas se há mais do que o equívoco, é talvez porque seja algo essencial, exposto à falsificação. Algo cuja descoberta muda o mundo aceito e replicado no modo monótono da existência. Que ironia – a paixão monotemática retira a razão da monotonia...!

De onde vem, como surge e como some a essência das paixões é um mistério cujo deciframento pode não nos interessar. Basta-nos saber que a essência oculta dá-nos a graça de ser ativada e esmorecida em pontos diversos da vida.

A pressa dos apaixonados, descabida para os que espiam de longe e juram conhecer de cor o enredo farsesco, é pressa justificável. Pois é preciso se atirar à experiência da paixão, antes que a febre recue, o delírio passe, a maré avance e derrube a construção delicada, perfeita, de beleza esculpida sob medida na areia do acaso.


Amor sob medida (The best man, Inglaterra/EUA, 2005)
Direção: Stephan Schwartz
Com Seth Green, Stuart Townsend e Amy Smart.